Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

A linguagem do fascismo

Jornal do Brasil Aldo Tavares*

Se tudo começa pela palavra, o termo fascismo deriva de faix-, o que nos leva aos sinônimos “feixe, molho” e, em sentido figurado, às palavras “grupo, ajuntamento”. No entanto, como fenômeno sócio-político de imensas proporções, o que é apenas grupo adquire a forma de massa, à qual o fascismo fala para protegê-la com a identidade de pátria. Assim, por ser linguagem político-identitária, o fascismo possibilita que a massa se identifique com o líder, cuja imagem deve estar acima das instituições, acima do partido.

A massa, uma vez transformada simbolicamente em povo pelo fascismo, ignora que, embora o fascista fale em nome da pátria, o povo já é subtraído pela própria fala do líder, porque essa Unidade Nacional chamada povo ou pátria não existe enquanto ser real, visto que a natureza do real é a impossibilidade de unidade na vida. O povo acredita, porém, que ele, o povo, é real, ignorando que a realidade é sempre a carência do real. Entretanto, o líder discursa em nome da Unidade Nacional e, quando digo unidade, refiro-me a uma espécie de purificação social, por exemplo, o modelo de família. 

O fascista só se identifica com fascista pela única razão de a identidade ser sempre igual a ela mesma, fazendo com que o indivíduo-massa seja adaptado à unidade simbólico-quantitativa por meio de pulsões agressivas de afetos, duas dessas pulsões: o amor a si mesmo e o ódio ao que não é o mesmo. O fascismo é o amor incondicional a si mesmo ou o amor a quem é sempre o mesmo, não havendo, portanto, simpatia pela alteridade, por exemplo, pela família composta por duas mulheres.

Nesse momento, isto é, quando a linguagem fascista apresenta uma de suas maiores evidências, a da identidade, ou seja, a da exclusão, essa mesma linguagem intensifica sua condição binária, quero dizer, sua condição de linguagem maniqueísta: o amor (agressivo) a si mesmo justifica-se à medida em que sente ódio por aquele com quem não se identifica. Esse ódio, porém, não implica se afastar de quem não se identifica, e sim se ajustar à devida aproximação para que seu discurso de ódio à diferença ou à alteridade seja elevado à categoria de Bem Nacional. O fascista necessita, próximo a seu ódio, daquele que ele julga ser um mal, a fim de se servir desse mal enquanto comparação maniqueísta. Sua violência, portanto, é dupla: à proporção que exclui a diferença por meio do ódio, essa violência a deseja perto para o jogo maniqueístico. Tal duplicidade equipara-se ao carrasco que necessita de sua vítima próxima o bastante para justificar a moral de quem mata pelo Bem da Pátria. A verdade de que fala o fascista realimenta-se, portanto, da imagem do próprio inimigo; e, caso esse inimigo não exista, o fascista o inventa, porque, se não inventasse, morreria de fome.

Destaca-se que a linguagem fascista não é fenômeno de direita ou de esquerda; bem antes de ideologias, trata-se da natureza humana de ser narcísica, isto é, “narciso acha feio tudo que não é espelho”, diria Caetano. Para esse mito, a verdade simetriza, iguala-se a ela mesma, regulariza, unifica, é reta, é una, é identitária. A verdade modela, no sentido de que ela é a justa medida de uma moral que se autopolicia para não fugir à natureza de modelo, além de policiar o outro para que este não seja diferente do modelo; porém, se for diferente, ainda será útil ao jogo maniqueísta.

Narciso, entretanto, não se limita a se olhar; ele se olha entorpecido, seu olhar é um torpor sobre si mesmo, por isso “narcótico” e “Narciso” têm a mesma raiz, qual seja, “narc-”. Entorpecido, o fascista torna-se apático ao sensível; apático à condição de se sentir no mundo com o Outro. O olhar de Narciso é o olhar de quem se olha para se reconhecer só como torpor, quer dizer, o olhar narcísico do fascista só reconhece a ausência de reação a estímulos de intensidade normal, por isso a sua violência, a sua pulsão agressiva; seu olhar sobre ele mesmo só reage a estímulos anormais.

No Brasil atual, para as pulsões agressivas serem ainda mais justificadas, usa-se o nome de Deus à revelia de uma exegese equilibrada, cuja teologia narcísico-fascista interpreta a palavra do Senhor como o Deus que destrói seus inimigos. Então, ordena a teologia narcísico-fascista que abramos em Levítico 20:13 para sentenciar que “se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos”. O Deus do fascismo não é de Amor, Deus de ágape, não é o Deus de Jesus Cristo.

* Professor de Filosofia



Tags: artigo, fascismo, filosofia, jb, pátria

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