Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

O educador, o poeta e a amnésia seletiva

Jornal do Brasil Thelma Lopes*

A redução orçamentária da principal agência de fomento à Ciência brasileira, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), foi notícia de destaque na última semana. Caso a sugestão de orçamento referente à instituição fosse confirmada, em 2019 milhares de bolsas de pós-graduação seriam canceladas e programas de formação continuada de professores, inviabilizados. O prejuízo iria muito além do que se pode traduzir em números e poderia causar enorme impacto para o ramo da pesquisa. O episódio mobilizou a comunidade científica, rendeu protestos de pesquisadores nas redes sociais e trouxe à tona a discussão sobre a importância dos investimentos na área de educação. 

O debate, no atual contexto e com a proximidade das eleições, ganha novo viés, mas trata-se de lacuna antiga e é também mais uma expressão dos abismos que caracterizam o país. Se por um lado nossas escolas convivem com problemas básicos de infraestrutura, tais como edifícios precários, salas de aula improvisadas, escassez de material e remuneração pífia de docentes, por outro, a educação brasileira é referência internacional na figura de Paulo Freire.  A despeito de ser a educação brasileira sistematicamente relegada pelo poder público, Freire é celebrado como um dos mais notáveis pensadores da história da Pedagogia. 

Laureado pela Unesco com o prêmio “Educação pela Paz”, suas obras são traduzidas em diversas línguas e é mencionado em universidades da Europa e América de maneira assídua. Em sua visão sensível e inovadora, considerou que não há aquele que ignore ou saiba tudo, e que, portanto, o processo de aprender é contínuo e jamais se extingue. O ser humano é inacabado e busca respostas para as perguntas originais. Quem ele é? De onde vem? Para onde vai? Considerando que educação é muito mais que a mera aquisição de conteúdos, vale dizer que é a consciência de seu próprio inacabamento que move o homem na busca pela educação. Isso também nos fala Freire.  Unanimidade no exterior, o legado do pernambucano que idealizou educação libertária, na qual todo saber deveria ser valorizado e construído em conjunto, tem sido alvo de críticas severas no Brasil. 

Interpretações equivocadas tentam reduzir sua obra a determinada ideologia partidária. Erro crasso. Freire foi crítico ferrenho do autoritarismo dos intelectuais, fossem de esquerda ou de direita. A condenação à supremacia ou hierarquização de conhecimentos e ideologias constitui o âmago da produção desse pedagogo. A questão é que a aplicação de suas reflexões e metodologias, consagradas nos mais respeitados centros de estudo mundiais, parecem não se encaixar com o momento de indignação e amnésia seletiva que acometem parte considerável da sociedade brasileira. 

Se Freire defendeu todos os saberes, hoje apenas alguns são convenientemente destacados. Outros, esquecidos. Mas precisam ser avivados para que não se repitam. Infelizmente, a ditadura e a escravidão existiram no Brasil. Durante um par de décadas, o direito de divergir foi ceifado e muitos foram calados. E, sim, portugueses e outros tantos europeus pisaram na África. E de lá arrancaram o povo local e desmantelaram a organização de tribos. Navios negreiros aportaram na costa americana trazendo africanos em condições sub-humanas para servir à elite branca. É um triste passado que não pode ser apagado. Precisa ser lembrado e discutido. Não se tratam de feridas a serem supostamente cicatrizadas pelo esquecimento. Nesses casos, a memória que desvanece não é remédio. Adoece ainda mais.  

Garantir a saúde e sanidade política do país não pode dispensar a lembrança de fatos horrendos que maculam a história brasileira. Admitir a existência e crueldade desses acontecimentos é o mínimo e, ao mesmo tempo, condição primária para compreender quão cínica e perniciosa é a defesa de práticas conciliadas com ideais totalitários. No campo das convicções políticas, o cenário mundial, e destacadamente o brasileiro, vive momento de infeliz deformação. Ao banalizar a violência ou negar dívidas históricas, discursos que, por vezes, beiram a caricatura, fazem avançar uma cultura de ódio que legitima injustiças, alimenta preconceitos e incita polarizações. E assim, o projeto de redução das desigualdades fica tão mais distante quanto o fosso entre ricos e miseráveis se aprofunda. E o que dizer diante de tanta injustiça? 

É preciso eliminar os abismos, e um dos caminhos é a educação articulada a diferentes conhecimentos.  E então, não por acaso, a lucidez vem da boca do poeta. Nesses dias sombrios a pergunta de Bertolt Brecht se atualiza: “Que tempos são esses em que temos que defender o óbvio?”.

* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências



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