Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Triângulo das Bermudas

Jornal do Brasil Carlos Fernando Andrade*

Relembre os episódios anteriores: com esse título, durante o período militar, o povo apelidara o trecho da esplanada, cujos vértices eram as sedes da Petrobras, BNDES e BNH, pois tudo que por ali passasse sumia.

O arrasamento do Morro de Santo Antônio fora iniciado nos anos quarenta, fruto do rodoviarismo getulista, mas só termina quando os modernistas já haviam se tornado hegemônicos na prefeitura, e Reidy, alterando o plano, sobrepõe as duas avenidas. Na plataforma resultante, propõe um novo Centro Cívico para a então capital federal.  

Já sabemos que, com a sua mudança, o projeto afunda, mas impressiona que a área tenha ficado tanto tempo vazia, até que surja outro funcionário, Hermínio de Andrade Silva, nos anos 60, e cria lotes, que serão ocupados pela nova Catedral e o tal triângulo. 

Esquecido pela história, em 1950, porém, Hermínio já havia elaborado um plano para, nada menos, a longínqua e agrícola baixada de Jacarepaguá, isto é, a Barra da Tijuca, região que atualmente responde por 70% do incremento populacional da cidade, igualmente esquecido, até nova explosão do rodoviarismo, com os governadores Lacerda e Negrão de Lima, opositores que disputavam o título de quem fazia mais do mesmo.

O investimento público naquele ermo foi incalculável: quilômetros de vias, túneis extensos, vias em dois pavimentos sobre o costão rochoso... Pode-se dizer que, nem antes nem até hoje, houve uma operação imobiliária de tal envergadura, e que até ali seguia, tão somente, o que fora traçado, em 1950, pelo  PAA 5596. PAA o quê? 

Já sabemos que a linha que separa os espaços público e privado, o alinhamento,  é definida por projetos chamados PAA. A numeração 5596 é referente ao plano elaborado por Hermínio (e José Mota): “Plano de Diretrizes para Vias Arteriais na Planície de Jacarepaguá”. É dele o sistema de vias designadas por números: 1 a 8, paralelas ao litoral. Perpendicular era a Via 11, um dia chamada Alvorada. E a Via 9, diagonal. Reconhece-as? Pois é...

Assim, após maciço investimento público, para que a completa transformação da área rural ocorresse, chamar-se-á alguém que poucos anos antes extasiara o mundo.

Poucos são os estudiosos do Plano Lucio Costa que se detêm nesse detalhe. Gerônimo Leitão, em seu “A Construção do Eldorado Urbano”, até comenta sobre “arruamentos paralelos em toda a extensão da baixada, com exclusão de ampla faixa correspondente à área ocupada pelas lagoas geminadas de Jacarepaguá, ou Camorim e Tijuca, preservada como parque”.

Opa! Retroceda no tempo e imagine uma reunião: gente engravatada, orgulhosa das obras viárias recentes. Calor medonho. Época em que ar-condicionado era raro e falho e a Casa & Vídeo ainda não popularizara o ventilador de teto. Grande papel aberto sobre a mesa... e alguém vocifera:

“Como é que é? Todo esse esforço... e dinheiro... para desperdiçar as melhores terras com esses parques enormes?”.  

Close no desenho sobre a mesa, seguido de um murro. Câmera se desloca. Zoom-in sobre alguém, tímido, que balbucia:

“Podemos revogar o 5596”. Todos miram o inexpressivo burocrata que, já seguro, acrescenta: “com a edição de outro PAA”.

Surge, assim, sob aplausos, o  PAA 8997, elaborado pelo Grupo de Trabalho da Baixada de Jacarepaguá e assinado por Lucio Costa, que talvez nem soubesse  o que significava o Item 1 do Artigo 3º do Decreto E 2.913, de 23 de junho de 1969, e que “substitui o PAA 5596”, viabilizando empreendimentos que, apenas um deles, quando lançado comercialmente, há poucos anos, era comparado, em extensão, ao bairro do Leblon.  

E assim, sem que precisassem viajar até o Triângulo das Bermudas,  desapareceram os parques, imaginados numa época em que as marchinhas de carnaval apenas alertavam para os perigos dos piqueniques na Barra da Tijuca:

“Menina vai... com jeito vai...” porque PAA pode ser algo além de três simples letrinhas. “Senão um dia... a casa cai... Menina vai”.

* Arquiteto DSc



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