Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Racismo religioso na corrida eleitoral

Jornal do Brasil Marcio Alexandre M. Gualberto*

Uma reviravolta política ocorrida nesta semana tirou a chance de dois candidatos ligados às religiões de matrizes africanas a possibilidade de concorrer ao Senado da República pelo Estado do Rio de Janeiro. Sabemos como é o jogo político e é aceitável que as negociações impliquem em coligações e cortes que as beneficiem, no entanto é sintomático que este corte de dois homens negros, religiosos de matrizes africanas tenha se dado de forma tão natural que mal se deu tempo de os grupos e pessoas que os apoiam reagirem.

O componente racial e religioso não pode ser ignorado neste episódio. Há, subjacente ao corte, o interesse em agradar o público evangélico de viés neo-pentecostal, que hoje é a grande força política do estado. 

Num momento em que o discurso de ódio vira elemento central da disputa presidencial, seria simbólico que os partidos de centro-esquerda dessem visibilidade às ditas minorias para equilibrar o cenário e aumentar o rol de escolhas dos seus eleitores. Entretanto, não é assim que pensam as lideranças partidárias eivadas ainda de um padrão de pensamento escravocrata e patriarcal, em que negros e mulheres são relegados a segundo plano sempre.

Na esteira dos cortes para o Senado temos informações de que várias candidaturas a deputado federal e estadual também foram limadas no apagar das luzes.

O que esses partidos estão sinalizando à sociedade é que eles não querem renovar a política e são pouco sensíveis às agendas emergentes e necessárias para um país que ainda não definiu seu projeto de nação e que corre sério risco de uma volta à Idade das Trevas.

Mais uma vez, como disse o ativista sul-africano Stivie Biko, estamos por nossa própria conta, o que coloca para nós, homens e mulheres negros, religiosos ou não, o desafio de construírmos nossas próprias estruturas partidárias, pois está nítido o recado que nem nós nem nossas pautas são bem-vindas aos partidos tradicionais.

Esse é um desafio para o qual estamos à altura, pois resistimos a séculos do processo de escravização mais cruel da história humana e ainda resistimos a uma pós-escravidão que não nos proporcionou oportunidades iguais para disputar os espaços de decisão do país. O racismo persiste e se acentua cada vez mais com o discurso de ódio e com a intolerância religiosa.

Somos homens e mulheres cada dia mais cansados do tratamento de segunda classe que recebemos, e, com força e organização, atingiremos nossos objetivos, nem que, para isso, tenhamos que passar por várias gerações até vislumbrarmos a vitória.

Dessa forma, o que esse início de disputa eleitoral nos aponta é que devemos voltar nossos olhares em outras direções. Devemos buscar construir alianças entre nós, estabelecer cinturões de apoio aos nossos, fazer o dinheiro circular entre nós. Enfim, construir um novo tipo de relação entre nós e de nós com o restante da sociedade que apenas nos rejeita e relega a segundo plano. Façamos isso o mais rápido possível, pois daqui muito pouco tempo será tarde demais para reagir ao que está vindo como perseguição e proibição de tudo ligado aos valores civilizatórios africanos dos quais nós, filhos da Diáspora, tanto nos orgulhamos.

* Jornalista, Babalawo da Tradição Afro-Cubana, Rama Ifanilorun, ogan confirmado para Yemonja no Ilê Axé Iya Omo Eja



Tags: artigo, jb, orixá, religião, stf

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