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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Economia e política na sucessão presidencial

Jornal do Brasil Vagner Gomes de Souza*

O debate político na sucessão presidencial não pode colocar em segundo plano um posicionamento transparente dos candidatos sobre a economia. Neste momento, o Brasil está na travessia de uma lenta recuperação de sua economia sem proporcionar uma sequência favorável de geração de novos postos de trabalho. Por isso, um candidato à Presidência da República requer, nesse quadro de caos econômico, o conhecimento do diagnóstico da situação para ser um gestor político das saídas para a crise brasileira.

Só o “amadorismo político” ou a predisposição ao arrocho social sem expor sua opinião em relação à economia brasileira justificaria declarações de desconhecimento do tema com a sugestão de sua resolução de uma forma tecnocrática. Essa postura impõe uma fantasia política para fugir de uma pergunta incômoda: quem ganha e quem perde na crise econômica brasileira? O silêncio do debate político sobre a retomada do crescimento econômico com distribuição de renda define em qual campo político se situam algumas candidaturas.

Não é necessário fazer um curso intensivo de economia ou fazer uma leitura dinâmica dos manuais para se inserir nesse debate. Aliás, sugerimos uma leitura atenta do livro “Valsa brasileira: do boom ao caos econômico” de autoria de Laura Carvalho. Uma abordagem que desfaz o mito de que a economia deve ser debatida só entre os especialistas, uma vez que os efeitos negativos da crise são partilhados pela grande maioria da população. Uma reflexão sobre os caminhos e descaminhos da economia brasileira da história recente, o que permitiria qualificar a campanha eleitoral.

Do “Milagrinho brasileiro” (2006 – 2010) até a adoção de uma agenda que ficou chamada de “Nova Matriz Econômica” observamos a natureza da escolha política para a emergência da segunda maior recessão econômica de nossa história. Há espaço para que o campo democrático se posicione sobre esses ajustes na economia, o que melhor qualificaria o debate programático das reformas: Reforma Tributária, Reforma da Previdência e revisão da Reforma Trabalhista. Não há tabu na política para falar sobre economia e propor escolhas que contribuam para o desenvolvimento econômico com justiça social.

Muitos irão perceber uma tendência de favorecimento das generalidades no debate sucessório para permitir ganhos eleitorais sem o compromisso histórico com a recuperação do nosso Estado de bem-estar social desenhado na Constituição de 1988. Essa é a hora de cobrarmos mais do que promessas eleitorais para resgatar o espírito das manifestações de 2013 na defesa de serviços públicos de qualidade, ou seja, “padrão Fifa”. A dinâmica da campanha eleitoral reduzida em dias poderá ser um obstáculo para isso. Entretanto, o movimento sindical, as lideranças da sociedade civil e os formadores de opinião seriam grandes aliados para evitar que uma “cortina de fumaça” midiática desvie o debate político para polarizações despolitizadas. Esse é o desafio em favor dos milhões de desempregados que alimentam as estatísticas.

* Mestre em Sociologia e professor de História



Tags: artigo, debate, história, jb, sociedade

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