Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Coisas da Política

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Tereza Cruvinel


As vices, para que servem

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Nas últimas horas, o jogo eleitoral começou a ficar pesado e houve uma correria atrás de mulheres como candidatas a vice. Hoje o PSDB crismará Geraldo Alckmin como candidato, tendo como vice a senadora Ana Amélia (PP-RS). A esperada indicação da candidata do PC do B,  Manuela D’Ávila, como vice de Lula foi abortada por ele mesmo, por razões táticas, mas ela continua no páreo.  Ciro Gomes tinha ontem, entre suas alternativas,  a senadora Katia Abreu, do próprio PDT. Henrique Meirelles já dava como certa a escolha de Marta Suplicy pelo MDB como sua vice. Ela surpreendeu recusando o convite e anunciando que deixará o partido e a política.  Somos  a maioria da população e do eleitorado mas não é por isso que eles querem uma vice mulher. Neste jogo, cada uma tem sua utilidade. 

Este utilitarismo, que se intensificou nesta eleição, confirma o papel secundário das mulheres na disputa política mas carrega também algo de positivo: o reconhecimento de que algumas mulheres, pela liderança setorial, força ideológica ou identidade temática, podem fazer a diferença. Vejamos o que cada um está buscando com sua chapa-metade.

Passo à direita

O tucano Geraldo Alckmin tem uma estratégia eleitoral óbvia.  Para chegar ao segundo turno, precisa recuperar os votos que perdeu para o Jair Bolsonaro em territórios outrora tucanos.  Hoje ele perde para o capitão em São Paulo e na região Sul.  No Paraná lidera Álvaro Dias, do Podemos. Nos outros dois estados (SC e RS), o candidato do PSL. No primeiro turno, disputar votos com Ciro e Lula no Nordeste é perda de tempo. E para disputar votos à direita, a senadora é um achado. 

Ela vem de uma vigorosa inflexão à direita.  Na refrega do impeachment, trombou forte com as senadoras Gleisi Hoffman (PT) e Vanessa Graziottin (PC do B). Até hoje, quando elas falam, Ana Amélia vira as costas para a mesa. Apoiou os manifestantes da extrema direita que atacaram a caravana de Lula pelo Sul. Tinham mesmo que “descer o relho” naquela gente que conduzia o condenado, disse ela.  Para este público, a vice falará, poupando o candidato. Depoius,  ela é moralmente inatacável, e o PSDB terá muito o quê explicar sobre obras superfaturadas e doações-propina de empreiteiras em seus governos.  Por fim, ela transita bem no Agro, hoje seduzido por Bolsonaro.

Vice plano A

A indicação de Manuela D’Ávila, do PC  do B, como vice de Lula, cogitação antiga, foi parte da aliança informal fechada entre o PT e o PSB.  Os três partidos trocarão apoios nas eleições para governador e senador em 11 estados e juntos fecharão o curral de votos lulistas no Norte-Nordeste.  Tudo ia bem mas ontem Lula desautorizou a aprovação da chapa na convenção de hoje, que indicará apenas o nome dele.  Isso porque, na visão de Lula, se vier a impugnação, o vice deve servir ao perfil do substituto. O paulista Fernando Haddad, por exemplo, pede um vice do Nordeste.  Já para o baiano Jacques Wagner, a sulista Manuela seria uma boa companheira de chapa. Mas, sobretudo, ele ainda acharia possível uma recomposição com Ciro Gomes, e quer manter a vaga aberta. Ontem Ciro bateu muito no PT mas depois assoprou.  

Os partidos devem informar ao TSE, até segunda-feira,  a chapa completa aprovada pela convenção, embora possam trocar o vice ao registrar a candidatura, se a Executiva tiver autorização para isso.  O PT porém entendeu que pode apresentar o nome do vice só na hora do registro da candidatura.  De todo modo,  Manuela confere frescor a qualquer chapa, fala a língua dos jovens e representa uma nova estética na política. 

Passo ao centro

Katia Abreu seria também, para Ciro Gomes, um passaporte para territórios, geográficos e sociais, onde ele pouco penetra. Ela é uma líder reconhecida do agronegócio e da média agricultura familiar, aquela que realmente alimenta o Brasil.  Ciro, depois de ter perdido o apoio do Centrão e de ter tido a aliança com o PSB torpedeada pelo PT, precisa falar para o centro, buscar votos ali. Kátia pode ajudar muito.

Não sobrou espaço para falar de Marta e de sua retirada melancólica da política, onde abusou do oportunismo.



Tags: alckmin, eleições, lula, política, psdb

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