Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Renê Garcia Jr.

Programas econômicos, embustes e tentações

Jornal do Brasil

O pensamento econômico, contido na linguagem política tenta frequentemente esconder o viés e a identidade genética escondida no DNA de ilustres pregadores da ciência econômica, que ,de propósito, distorcem a mensagem dos pais fundadores da ciência.


Alguns desses pregadores em seus púlpitos, destilam um evangelho que contém alta carga de misticismo, formando um material corrompido, uma mutação de uma área de conhecimento, que nunca se propôs a produzir seitas ou participar de escolas metafísicas ou posições escatológicas.


A bem da boa análise epistemológica , convém revelar que, boa parte do que se convencionou chamar de postulados teóricos de tradição neoclássica está presente na teoria econômica praticada nas grandes escolas de economia que dominam o que se convencionou chamar de “ambiente dominante” - mainstream, e está contido em conjunto de enunciados, teoremas e postulados que revelam uma leitura que pode ser de difícil compreensão para os não iniciados e apresentar uma certa distância do pensamento comum. Daí, a percepção de que a economia carrega uma máscara mortuária pela aparente indiferença com que são tocados os temas envolvendo questões sociais .


De fato, a teoria que inspira os manuais de economia mais utilizados em escolas de economia de orientação ortodoxa é uma resposta racional aos principais problemas que envolvem trocas, onde o conteúdo encontrado expressa uma lógica focada em preceitos onde agentes: famílias e produtores são racionais e atomizados, reagem a incentivos e punições em uma escala de preferências e restrições. Todos operando em um mundo de livre concorrência onde as informações relevantes são disponíveis, não há moeda, nem acumulação.


No âmbito da Macroeconomia, a teoria que embasa, os manuais de iniciação ao conhecimento da ciência, é apresentada em constructos e modelos rudimentares, que não exploram formulações de políticas públicas que levam em conta a presença de inconsistências no comportamento desses agentes ou a existência de disputas por nacos do orçamento público e influencias de mecanismos de captura do Estado por categorias e mecanismos de barganha de poder por e entre poderes.


Nesse aspecto, para o observador externo, a frieza dos diagnósticos dos economistas e as soluções aparentemente descoladas do que se pode denominar como compromissos políticos podem ser vistas como um discurso de indiferença com os mais pobres e um certo viés favorável aos empresários.


Ocorre que, a formulação econômica contida nos ensinamentos da teoria econômica com viés pró mercado é, de fato, uma ciência que busca soluções de maximização de utilidades e produção e bem estar, tendo por foco a procura de equilíbrio(s) competitivo(s) geral(is), em que situações de equilíbrio sejam alcançadas com o menor custo, o mínimo de fricções e maior valor de produção, observadas as restrições de várias naturezas , tais como o nível de renda e a consistência intertemporal das decisões, aqui expressos em uma linguagem simples e pouco formal. Peço desculpas pela limitação dos argumentos, em decorrência do espaço e natureza dessa coluna.

Mercado, um modelo que não é a panaceia

O modelo de mercado não tem por meta arranjos de natureza social em concreto. Em suma, o modelo de mercado não tem por premissa a diminuição da pobreza, muito menos a formulação de soluções para a concentração de renda e o combate à corrupção. Essas são temas cujas soluções devem surgir de políticas públicas e escolhas coletivas.


Da leitura por grande parte dos entendidos e versados com a teoria econômica convencional, expressa nos comentários dos agentes representativos do chamado “mercado”, surge a convicção de que a maioria dos programas de governo apresentados pelos candidatos à presidência são verdadeiras armas químicas, com alto poder de destruição, por sua vez, a leitura de enunciados e afirmações dos candidatos está repleta de soluções fáceis para problemas complexos cercados de evasivas e erros elementares de lógica, pressupostos frágeis e soluções inconsistentes .


Não estamos aqui propondo uma submissão de agendas politicas a uma lógica racional tecnicista, estamos apenas observando que programas econômicos de candidatos à presidência, deveriam ser analisados com devido rigor, a história recente revelou as consequências de desvios de grande magnitude de alguns postulados econômicos rudimentares, que foram devidamente esquecidos pelos formuladores de planos econômicos vencedores em pleitos eleitorais.


A compreensão que surge depois da tediosa análise desses programas é a de que um grande logro está em curso, ou que peças de má ficção alicerçam campanhas políticas com grande probabilidade de que novas tentações heterodoxas emerjam como verdadeiras panaceias aos graves problemas da economia brasileira, vendidas como um grande sopro de esperança para uma passagem dos dias de hoje para um futuro de prosperidade, sem custos de transição. Mundo em que a “solução política” basta para resolver a realidade de desacertos e descaminhos do passado recente.


Nessa variante, será muito difícil que os próximos meses de 2018 apresentem uma reversão dessa trajetória declinante das atividades e ao crônico desemprego estrutural, ou à reversão no volume de investimentos.


A probabilidade de fortes decepções com o resultado das eleições e o inevitável sentimento de engodo ou estelionato eleitoral é muito alta, o que nos leva a deixar as seguintes perguntas no ar: Por que os políticos mentem tanto? Por que os debates promovidos pelos meios de comunicação são centrados em fofocas, picuinhas, desrespeito e agressividade para e entre os candidatos? Qual a culpa das redes de comunicação na alienação e desconstrução da política? Os debates e entrevistas “interrogatórios coercitivos” na televisão estão colaborando para apequenar a campanha política? 



Tags: economia

Recomendadas para você