Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Advertência nos ares latinos

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Encontram ampla justificativa os temores quanto ao perigo de prosperarem os governos antidemocráticos na América Latina; não fossem suficientes, para preocupar, os dois exemplos que hoje corroem os direitos humanos nesta parte do mundo. Primeiro, a Venezuela, depois a Nicarágua, sugerem que a situação naqueles países seja tomada como advertência para a harmonia continental, além dos males da crise intestina que suas populações estão enfrentando.

Na avaliação das responsabilidades de vizinhos, cabem ações destinadas a impedir que o autoritarismo desmedido venha a assumir caráter epidêmico, risco a que poderiam estar sujeitos os países, quando em clima de conflito interno. Sabendo-se que são raros os casos de paz absoluta nesta parte do continente, há que se definir, como totalmente pertinente, uma tarefa para a Organização dos Estados Americanos, a despeito de nunca revelar suficiente coragem para intervir nos impasses desse tipo, escudada nos melindres da soberania.

Paralelamente, não faltam sugestões, em algumas capitais, para que a política externa brasileira assuma papel mais saliente nesses casos, impondo-se junto à OEA; agora em particular, causa própria, quando uma universitária pernambucana morre sob bala perdida na Nicarágua. Mas, por que nós? Porque uma tarefa dessa dimensão só faz sentido, com autoridade junto àquela entidade, se couber a um país que esteja exercitando a plena democracia. Considere-se que, se são muitos os nossos problemas, e na verdade são, aqui as instituições vigem, ainda que com desacertos. Para o cientista Steven Levitsky, de Harvard, nossa democracia figura como a mais sólida entre os latinos. Aceito o galardão, crescem as responsabilidades perante o continente, mesmo com o natural desânimo de um governo prestes a se dar por encerrado. Governos que vão acabando costumam revelar sonolência para agir em questões internacionais, quando não oferecem resultados diretos e imediatos.

No caso do país em que se sacrificou a vida de uma jovem brasileira, vítima inocente em cenário distante de sua terra e de sua gente, a crise vivida hoje recomenda especiais atenções, começando por mostrar que os regimes que se aclamam como salvadores da pátria são exatamente os que desvirtuam seus princípios. Negam as raízes, facilmente adotam a violência para assegurar o poder, não hesitam em sufocar os direitos dos contrários. Eis os bolivarianos, eis os sandinistas.

Esse destino sombrio nunca deixou de excitar ditadores na América Latina. Mas é preciso interromper tal vocação, já que bastantes são os sofrimentos a que estão condenados venezuelanos e nicaraguenses. Ao Brasil, que por aqui exerce natural liderança, resta fazer alguma coisa, em nome da paz, ainda que muito tenha feito por refugiados.

Um antigo projeto, tema que se propôs há cerca de vinte anos, em Punta Del Este, durante reunião de chanceleres, sugeriu que os países de línguas espanhola, portuguesa e francesa formassem uma Força de Paz para eventuais e autorizadas intervenções em casos de conflagração interna, como a que se vê atualmente em dois países. Mesmo não prosperando, o plano acabou por confirmar sua eficácia, quando o Brasil, mais recentemente, enviou missões militares ao Haiti, onde as tempestades políticas se associavam a desastres naturais. Bom resultados naquele país caribenho compensaram os esforços humanos e o investimento financeiro. Os haitianos passaram a ver os brasileiros como solidários e dedicados.

Na América Latina, as nações contam com suficientes experiências históricas a justificar um proveitoso intercâmbio, que não se restrinja a interesses de importação e exportação. Não fica bem assistir à tragédia sem tentar ajudar a solucioná-la.



Tags: américa latina, democracia, editorial, governo, jb

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