Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

O desafio de gerações

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Se em 2047 os brasileiros sexagenários serão um em cada grupo de cinco, como anuncia a mais recente estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o que importaria num dos mais elevados índices de longevidade do continente americano, a indagação cabível, embora não seja nova, é o que os futuros governos pretenderão fazer para garantir condições mínimas a essa crescente multidão. As projeções anteriores, as que haviam sido formuladas duas décadas atrás, já mostravam, com alguma clareza, as projeções demográficas daquele mesmo instituto, uma população que vai envelhecendo em proporções contrárias aos recursos que se disponibilizam para socorrê-la; nem se ousaria pretender promovê-la. Seria pedir demais.

Diante do tão pouco realizado, o país tem a desfiá-lo, por primeiro, a caducidade de um sistema previdenciário, que a cada ano amplia os rombos em suas entranhas. Muito grave, porque o primeiro compromisso com o envelhecimento dos cidadãos é um atendimento médico e de sustentação, coisa que esta Previdência ignora ou oferece modestamente. O que não impede, em oposto, ser generosa na concessão de benefícios privilegiados. É o contraste que grita: quando maiores as aposentadorias, maiores as gentilezas para torná-las mais ricas.

Mas, como se diz, águas passadas não movem moinhos. O que se recomenda, agora, é tentar impedir que os males cresçam, a menos que não se dê fé no desastre iminente: a Previdência vai explodir, talvez sem condições de honrar seus compromissos mínimos. Algo que se oferece ainda mais trágico, ante a previsão de maior número de idosos, porque são eles, em sua quase totalidade, a faixa da população que, precisando de assistência, é também a que menos se adequa para obter empregos suplementares. São os desacostumados com exigências de um mercado exigente, ainda que sejam muitos os saudáveis e animados para assumir novas tarefas.

As expectativas que nesse particular vão se abrindo para o Brasil assemelham-se à situação vivenciada pelo Japão, quando o grande país oriental decidiu sacudir poeiras passadas, revogando, com coragem e determinação, recursos desperdiçados, mas transferindo para as faixas dos veteranos os benefícios antes concentrados em castas mais altas. Os japoneses são, hoje, modelo universal de respeito às populações anciãs. 

Outra revelação a reclamar atenções especiais, ainda inspirada nos números mostrados pelo IBGE, é que, dentro de três décadas, um pouco para mais ou para menos, estaremos assistindo a um fato do qual resultará grave singularidade: ao mesmo tempo em que prosperar a população dos velhos, estará declinado a dos jovens, o que autoriza a perplexidade de ver mão de obra cansada, ante a escassez do braço dos moços; pelo menos seria novidade para o sistema produtivo.

Se der curso ao pessimismo, não faltará quem admita que temos um destino ao mesmo tempo sombrio e irremediável. Não é verdade. Outros povos, coincidentemente os mais desenvolvidos, foram chamados a enfrentar problemas iguais ou semelhantes, quando perceberam que saía de seu controle a distância entre a população crescente e os modestos instrumentos assistenciais. Mas não desanimaram, não se deram por derrotados. O que fizeram, todos eles, é exatamente o que nos cabe fazer: eleger, como prioridade, políticas centradas nos dois extremos da linha vital dos cidadãos: estímulos à juventude para crescer e participar, e, na outra ponta do desafio, cuidados efetivos com os que envelhecem e reclamam ações do Estado. 

Os governos devem, e não podem continuar devendo indefinidamente, iniciativas de concretude nas duas extremidades da linha em que caminham os brasileiros, estejam para nascer ou para morrer.



Tags: editorial, envelhecimento, governo, jb, população, sociedade

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