Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Julgamento fora de hora

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O que haverá de definir a real eficácia da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro não se pode dar por conhecido e definido antes de dezembro, quando expira a validade do decreto presidencial que a instituiu. Restando cinco meses para atuar, a interventoria não pode nem deve ser submetida a um julgamento antecipado e definitivo. Não enquanto se mantiver dentro de seus prazos. Tanto os que simpatizam, como os críticos mordazes, têm maiores ou menores razões para defender seus pontos de vista, mas sem que se perca a noção de que o problema que está sendo enfrentado na cidade é de tal complexidade, acima da boa vontade geral, que se alguma coisa restar benéfica para a população, o papel desempenhado pelas forças militares já encontraria alguma justificativa.

Mesmo se a opinião pública e as entidades continuarem alimentando preocupações, pois continuam assistindo aos mesmos tiroteios, à profusão das balas perdidas, à morte de policiais em serviço ou não, há um dado positivo; qual seja, o que logo se investirá na reorganização dos quadros das polícias Civil e Militar, além do seu reequipamento, algo que custará em torno de R$ 500 milhões. Não é o que vai derrubar os elevados índices do crime, mas muito importante, se a população tomar em conta que a estrutura de sua defesa encontra-se totalmente defasada, na mais rigorosa obsolescência. Obtendo-se esse progresso para colocar policiais e criminosos no mesmo patamar de recursos no enfrentamento, já se terá feito algo significativo.

É a grande defasagem que se observa na comparação dos instrumentos disponíveis entre os dois grupos, o da lei e o do crime. Armas, munições e viaturas fazem a diferença, lamentavelmente a favor da bandidagem organizada. É uma realidade diariamente confirmada pelo noticiário da imprensa. De forma que foi oportuno o anúncio sobre a prioridade para o reaparelhamento. Bastaria para se obter bom progresso em nome da segurança, contra a violência urbana? Certamente que não. Mas é um passo concreto para nivelar os poderes de fogo, hoje francamente favoráveis  ao crime, principalmente quando se sabe ser ele sustentado pelo tráfico.

As entidades, os políticos e candidatos que condenam a intervenção, e nela nada veem de positivo, alegam que forças militares, organizadas e educadas para enfrentar inimigos, acabam confundindo, entre aqueles, os cidadãos pacatos. Esse é um dado importante e real, porque, na avaliação objetiva, o militar está fora do cenário para o qual foi instruído nos quartéis. Na contra-argumentação há vozes lembrando que a violência urbana no Rio, em determinados momentos, nada fica a dever aos grandes conflitos. Para essas, estaríamos bem perto das estatísticas de países em guerra. Há dias em que se morre mais nos subúrbios do Rio de Janeiro do que no interior da Síria, por exemplo. Um Rio de sangue. Em resumo, aos cariocas tem sido concedido um índice de violência em nível oriental.

A presença da formação e adestramento militares no caso local, inconveniente sob parâmetros teóricos, não deve ir além de uma ação cirúrgica, sem a veleidade de acharmos que agentes das Forças Armadas podem extirpar a violência. O que eles podem fazer é contribuir num projeto ambicioso de reorganização das polícias, equipando-as e tornado-as livres dos focos de corrupção que com eles convivem.

No aguardo de resultados, e que possa reconquistar um mínimo de tranquilidade nas ruas e nas casas, o carioca certamente prefere deixar para depois a discussão sobre se os militares deviam ou não escalar os morros em busca de bandidos. Diante do volume do problema enfrentado, parece fora de hora uma discussão transcendente, como a do sexo dos anjos.

No momento, o que está em pauta é torcer para que tudo dê certo, e o próximo dezembro não seja igual àqueles que passaram.



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