Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Verdade e isenção

Jornal do Brasil

Os temores quanto ao risco de estar o país sujeito a uma avalanche de falsas notícias, ou fatos que se recusaram a acontecer, continuam se avolumando em vésperas de eleição; de maneira que os brasileiros seriam sufocados, não apenas pelo que devem saber sobre os candidatos, mas também o que de falsidade sobre eles se divulgará. Com maior ou menor intensidade, um medo confuso autoriza suspeitar a possibilidade de milhares de votos se deixarem contaminar por campanhas insidiosas. Eis o tempo de fake news.

Se os meios eletrônicos podem se prestar, lamentavelmente, a distorções dos fatos, mentiras ou meias-verdades, ouve-se de especialistas que, se um fato puxa outro, o risco acaba por ampliar a responsabilidade da mídia tradicional, considerando-se que esta não se permite abrigar no anonimato; e tem de zelar mais pelos fatos, com a seriedade com que eles devem chegar a quem lê. Mostra a cara.

Como capricho no caminho da mídia impressa, que vive dias desafiantes, é, portanto, sobre ela que vão se depositar garantias das fontes confiáveis. Defesa e salvação para quem pode se tornar alvo das desinformações tendenciosas, que certamente não faltarão na boataria contra candidatos e partidos, ampliando-se os espaços para a indústria dos contrários radicais. Pode-se lembrar que o próprio presidente Temer veio a público, semanas atrás, para recomendar cuidado com as notícias espetaculares, de procedência duvidosa. Sugeriu que se espere o jornal do dia seguinte...

Vem daí, logo se percebe, que a confiabilidade ampliada dos jornais na temporada eleitoral não deve ser recebida como fenômeno gratuito. Ela exige grave contrapartida, que começa por impor aos profissionais da área o que deve diferenciar expressão e opinião, ambas procedentes e desejáveis, desde que não incorram no partidarismo radical e odiento; essa distorção, que elimina os contrários, nega-lhes o direito de também serem notícia e a todos chegarem, mesmo cercados de ampla discordância. Festa para os amigos, ódio para os outros: meus amigos são meu assunto, diria um leviano.

Impõe-se eliminar o defeito do parti pris, sob pena de o jornalista assumir papel do propagandista, que festeja apenas o que é de sua simpatia pessoal, mas execra e ignora quem não segue suas ideias e condutas políticas. Nesse papel, vira serviçal de facções. Falece o jornalista e nasce o panfletário ou o terrorista verbal, esse doente de hemiplegia mental.  

Os que produzem o noticiário (nem seria necessário repetir o que há muito se prega) não podem ser reféns do facciosismo. Mais ainda nestes dias em que se alastra tanto medo com as falsidades malévolas e o campo aberto aos radicais tendenciosos, indesejáveis em qualquer campo da atividade humana, mas principalmente na imprensa, na religião e na política. Na imprensa, recordando George Bernanos, eles são divertidos até os 21 anos, toleráveis até os 30, chatos aos 50 e obscenos a partir daí...  

Apontado no Brasil e em qualquer parte do mundo como fonte adequada para remoção de dúvidas e consagração da verdade, poderosa blindagem para conter fake news, o jornal vai aprofundar muito mais sua responsabilidade com o direito - ou mesmo dever - de opinar, conscientemente, sobre candidaturas e projetos que lhe pareçam mais consistentes para o momento nacional. Nem aí para agredir a salutar isenção quanto aos fatos, mas procurando identificar o que parecer melhor no momento e nas circunstâncias.  

Trata-se, por bem dizer, de uma responsabilidade decorrente, inarredável, exatamente como dever de oferecer ao eleitorado um recurso a mais na elaboração de suas conclusões, e escapar das ondas de inverdades e provocações. Não há como fugir disso, pois são nos grandes momentos que se deve remover a postura da omissão.



Tags: editorial, eleições, fake news, jb, política

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