Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Quem as pesquisas rejeitam?

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Inevitável um apelo à reflexão atenta, após a leitura do que têm revelado pesquisas sobre as tendências eleitorais, principalmente a mais recente delas, que não deixou de causar algum espanto e muito interesse, ao tratar do fenômeno da rejeição com que estariam contemplados os candidatos à Presidência da República. Se faltava algo inédito na história das eleições brasileiras, eis, agora, esse quadro sinistro, a todos condenando um repúdio nunca inferior a 50%, com a pálida exceção de Álvaro Dias, que surge com 46%, porém longe de poder desfrutar de posição mais confortável entre os competidores. É o panorama que, à primeira vista, se abre à avaliação dos cidadãos que começam a analisar o destino do voto, certamente desacorçoados.

Mas há que se eliminar conclusões apressadas e definitivas. Cabe considerar que a classificação altamente negativa que os números relevam não é tudo. Há algo embutido no diagrama, e esse mais já não é tarefa dos pesquisadores, mas assunto para cair na mesa dos cientistas políticos.

O que sugere refletir está acima de números tão desagradáveis, que no momento inicial da campanha as pesquisas atiram nas costas dos candidatos, que estão em vitrine. Pois, em rigor, o que parece trazer ao conhecimento público não são eles, os candidatos ao Palácio do Planalto, mas o conceito adquirido pela classe política, no seu todo, sem individualizações. A classe está por eles representada neste momento, e, portanto, escoadouro natural, por onde desaguam descontentamentos e decepções, embora com uma dose de injustiça, que nunca falta nas generalizações.  

Não parece ser possível leitura diferente dessa condenação conjunta que acaba de ser publicada; mesmo porque, umbilicalmente atrelada ao quadro de rejeições, vêm as intenções de votos, com as posições já conhecidas. Notam-se os favoritismos em vias de se consolidarem. Como seria votar num pleito em que todas as opções estão em baixa, recusadas pelas maiorias? Uma incongruência gerando situação impossível de ser concebida, desconcertante.

O que a consulta constatou, indireta e inconscientemente, foi, portanto, uma avaliação da política dos nossos dias, retratada com o ônus da incompetência de numerosos agentes, ou incompetentes, ou alienados, ou corruptos. Se os candidatos saem lesionados, a classe ganhou fratura exposta nessa pesquisa. É preciso, então, cuidar para interpretar o que os números realmente pretenderam indicar, e nesse sentido assumem uma importância intrínseca que convém observar.  

Por fim, objeto de mero efeito de raciocínio, considere-se que alguns ou todos os candidatos pretendentes à mais alta magistratura estejam de tal forma comprometidos nesse quadro, e fossem condenados a dar a largada sob um clima de total desprestígio; ainda assim teriam sido úteis para demonstrar, mais uma vez, a jamais negada eficácia do segundo turno de votação. Demonstrado está que com ele, além de garantir ao eleito o aval da maioria, define o peso da verdadeira rejeição com que são contemplados os postulantes promovidos à última triagem. Já nem será mais toda a seara política submetida a julgamento e condenada ao cadafalso, mas apenas os dois finalistas. O segundo turno, fechando o outubro de tantas expectativas, é uma luta virtuosa, apesar de também se prestar a conluios e acordos nem sempre confessáveis.



Tags: editorial, eleições, governo, jb, política

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