Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

A obesa máquina ministerial

Jornal do Brasil

Tem sido fácil perceber, nas entrevistas dadas pelos candidatos à Presidência da República, que um dos temas mais do agrado dos que formulam as perguntas é a disposição que teriam de reduzir o número de ministérios, curiosidade amplamente justificável, porque não há neste país quem não condene o excessivo número de pastas, muitas delas atropelando-se nos gabinetes e auditórios, confundindo-se em projetos e metas iguais; e nem por isso com melhores resultados. O problema, que não é novo, tem passado à frente de outros, quando se alega que o novo presidente, seja quem for, terá de se dedicar a um providencial enxugamento da máquina administrativa, que no atual governo continuou sofrendo de robusta obesidade. Essa expectativa vai no bojo das restrições de gastos cobradas, o que de forma alguma constitui novidade. Nunca houve presidente que pudesse se sentar em bruacas cheias.

Qual, entre os candidatos, se sentiria com suficiente coragem para dizer que não há excessos no primeiro escalão?  Ao contrário, todos concordam na necessidade de cortes e limitar os ministérios, seja pela extinção dos dispensáveis, seja pela incorporação de setores que podem trabalhar em frentes várias, sem as anteriores autonomias. E prometem zelosas providências. Mas o campeão na corrida terá de ficar nisso. Porque estará se defrontando com tarefa que é inglória para quem chegar ao Planalto, e as promessas de restrições logo caem no vazio. A razão é simples: acima dos interesses e dos projetos de racionalização da máquina administrativa prevalece, como tem prevalecido sempre, a necessidade de acolher demandas dos aliados na campanha eleitoral; e, para tanto, a via única é uma extensa coleção de cargos, distribuídos de acordo com o cabedal eleitoral de cada pretendente. A proliferação dos ministérios e dos cargos que neles são criados passa a ser peça irremovível da governabilidade. Sem falar em um engodo cínico, destinado a mascarar a fartura ministerial, depois que ela atingiu 30 pastas: criaram-se secretarias, com honras e todas as glórias concedidas ao primeiro  time.

Os candidatos, na caça aos votos, prometem parcimônia e contenções, mas dificilmente  terão como executá-las, porque as exigências são muitas e ameaçadoras, o que se percebe com nitidez, ainda mais acentuada, quando as alianças vitoriosas são formadas por novatos na arte de conviver com as fontes do poder; aqueles que delas encontravam-se distantes. Chegam sedentos e famintos, e não há presidente com força suficiente para conter o apetite. Foi dos glutões políticos que o eleito se valeu para chegar à vitória. Como negar as fatias dos bolos ministeriais?

A quem se promete muito, sabendo-se que não será possível cumprir, há uma advertência irônica de De Gaulle, num momento em que os grupos e partidos muito exigiam de uma França pobre de recursos: as promessas só comprometem quem as ouve, não quem as formula, disse com sinceridade. Que os eleitores cuidem de refletir, porque os candidatos podem prometer o ideal, que pouco tem a ver com o real.

Então, o enxugamento na linha do primeiro escalação, como confirmação de que o país precisa mesmo economizar no tanto que gasta, uma proposta que tão agradavelmente soa aos ouvidos do eleitor, há de ser visto não propriamente como boa vontade e disposição de quem pleiteia votos, mas confissão antecipada de que presidente da República sempre foi condenado a ceder a pressões e conveniências, um conjunto de encargos que arrasta desde a campanha e deles não tem como desvencilhar-se. E precisa ter fontes para isso.



Tags: candidatos, editorial, eleições, jb, votos

Compartilhe: