Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Obras a serem cobradas

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De tanto se revelarem infrutíferas, nos últimos tempos, as queixas sobre obras federais abandonadas, percebeu-se que elas praticamente inexistiram no primeiro semestre, segundo apuração cuidadosa de leitores dedicados a acompanhar o descaso. A população, cansada, desistiu de reclamá-las.

São numerosíssimas, e algumas delas definitivamente perdidas, depois de longa espera pelas verbas que nunca chegaram. No rol figuram também as que não tiveram a defendê-las bom padrinhos, entre os quais os que precisam delas para receber suas comissões.

Fazem parte de um inventário com todos os motivos para preocupar, mesmo que desse relatório o que se possa extrair são dados isolados. Certo, contudo, que se espalham por todos os estados da Federação, num retrato nacional do desperdício do dinheiro arrancado aos contribuintes. Contudo, não há nos ministérios informações suficientes para que se tenha um panorama geral e fiel; o que talvez se possa explicar com a intenção do governo de evitar confissões constrangedoras. Compreende-se.

Quando, há cerca de quatro anos, tentou-se um levantamento criterioso, admitia-se que os prejuízos no campo das obras mortas seriam algo em torno de R$ 25 bilhões. A quantos somariam hoje esses reais? Certamente muito mais, até porque são muitos os projetos esquecidos há décadas. Como de lembrança imediata, cita-se, entre os mais velhos, um pequeno e muito importante açude no Piauí, que figura no mapa dos estados que mais necessitam de iniciativas desse porte.

Como uma grande parte da eficiência de um governo depende das informações que lhe são passadas, parece razoável esperar que a futura gestão determine imediato mapeamento desse sombrio quadro de abandono, e, consequentemente, eleja obras que, sendo as mais necessárias e cansadas de esperar, possam ser logo retomadas. Nem haveria como determinar o recomeço de todas, ante a franciscana indigência do Tesouro. Mais triste é constatar inúmeras já condenadas a morrer de vez. Nem valeria a pena tentar reerguer milhares de toneladas de vergalhões que o tempo corroeu por completo.

Para acentuar a decepção, o pretendido inventário dessa inércia haverá de revelar que não poucos projetos abandonados começaram sob promessa para garantir vitória a governadores e deputados. Abertas as urnas, contados os votos, empossados os eleitos, as obras foram para as calendas. Um crime duplamente imperdoável, porque é, ao mesmo tempo, um engodo e um desperdício: eleitores enganados e o dinheiro dos impostos jogado nos ralos.

Já que o país está prestes a assistir à inauguração de um novo governo, sempre ocasião para renovação de esperanças e esquecimento das frustrações, seria oportuno dar conhecimento à opinião pública do acervo negativo desses canteiros de obras abandonados, onde se plantaram as esperanças de novas estradas, hospitais, creches, escolas e ferrovias. Sobre essas, valeria considerar que passou a hora de o poder central, considerando a extensão territorial do país, levar em conta que um sistema de transporte acima de 500 quilômetros deve privilegiar a ferrovia, substituindo a malha rodoviária, que, além daquela dimensão, reduz as vantagens econômicas e ambientais. Este é o único país do mundo, com esse tamanho, a menosprezar o trem.

Ainda ao embalo desse novo tempo, mesmo sem se saber se virá para melhorar o tanto de que o Brasil precisa, seria justo apelar ao Tribunal de Contas que amplie seus rigores legais e, com eles, cobre dos governantes o dever de concluir o que começaram. Principalmente se os conselheiros se depararem com interesses eleitoreiros nos projetos aprovados e nas obras festivamente iniciadas para angariar votos. E que nada mais foram além disso.



Tags: editorial, jb, obras, projetos, tcu

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