Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

A Gucci vai ao Gueto

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FALEI AQUI ontem do poder do Movimento Negro no Brasil, cada vez mais influente e atuante. São muitos desafios a conquistar. Começando pelas devidas providências contra o genocídio institucionalizado de negros, eliminados como moscas. A cada 100 vítimas de homicídio no Brasil, 71 são negras. A cada 23 minutos, 1 negro é morto, por dia são 63 negros mortos, 23 mil por ano... A POPULAÇÃO NEGRA é a mais atingida pela violência e o desemprego. O povo negro é sacrificado desde que desembarcou em nossa costa, nos navios negreiros, acorrentado e posto em balanças de pesar gente para aferir seu valor em dinheiro... SEUS DENTES, suas mãos, a pele, eram investigados pelos compradores, como quando se adquire qualquer animal, e assim eram tratados. Como animais, vivendo em senzalas-chiqueiros, dormindo no chão, se alimentando de restos, submetidos aos chicotes e toda a sorte de perversidade, gravados com ferro como gado, eles atravessaram os séculos e, ao serem libertos, o estado se preocupou em indenizar, não a eles, que ficaram jogados nas estradas da amargura, mas a seus donos, remunerados pelo governo brasileiro pela perda da mão de obra gratuita... AJEITARAM-SE NOS MORROS em favelas de caixotes, e os brancos de nariz torcido, só criticando, procurando sempre um jeito de afugentá-los de lá... NÃO CONSEGUIAM ver beleza em nada que o preto produzia. O samba, até se impor, foi repudiado. As religiões de matriz africana, sempre vistas com preconceito. A beleza do branco foi sempre convencionada a ideal, a do negro, imperfeita... O JOGO MUDOU, meus amores, o negro está empoderado. O black money é uma força. Black is Beautiful... NOS ANOS 80, 90, apoteose das marcas, com suas logos exibidas nos couros e nas ferragens das bolsas, valises, carteiras de Gucci, Louis Vuitton, Hermès, Céline, Chanel, todos queriam ter, mas bem poucos podiam pagar o alto preço... A INDÚSTRIA DA contrafação prosperava, as cópias podiam ser facilmente encontradas. Em Nova York havia uma rua, a Cannal Street, em que os brasileiros se fartavam de comprar bolsas “de grife” idênticas às originais... AS DE CHANEL vinham até com o cartãozinho de autenticidade fajuto. E a indústria de luxo pagava milhões de dólares em advogados para processar os copistas. Entre eles, o que mais dava arrepios em Gucci, Vuitton e nos outros, era um certo Dapper Dan, que abriu loja no Harlem, um bairro de Nova York, então conhecido como um gueto de negros... FATO É QUE Dapper Dan não se restringia a simplesmente copiar o que as marcas faziam. Ele ia muito além. Inspirado por um cliente que bateu na sua loja todo orgulhoso porque tinha uma pochete do Louis Vuitton, ele pensou: “Se ele está assim por causa de uma bolsinha desse tamanho, que dirá uma roupa inteira?”... E PASSOU A PRODUZIR jaquetas, calças, tênis, o que lhe viesse na inspiração, com a marca Louis Vuitton. O mesmo fez com as demais, Gucci, Chanel etc... AS ROUPAS DE Dapper Dan são over, muito dourado, logos enormes, aqueles casacos de pele exagerados, peles brancas, peles coloridas, que os cantores de hip-hop usava m com correntes de ouro grossas e pesadas, medalhões, chapéus de abas largas e botas douradas, e assim saltavam de suas limusines brancas, como vi uma vez acontecer na porta de um nightclub de R&B no West Side, e fiquei me perguntando “quem veste esses artistas dessa maneira maravilhosa?”... ERA DAPPER Dan e eu não sabia... A DAPPER DAN’S Boutique foi inaugurada na 125th street em 1982 e durou 10 anos. Tempo suficiente para fazer história. Suas jaquetas ficaram inesquecíveis. Seu mix de couros, cores, marcas de luxo alheias, nas roupas e acessórios, estampas, se tornaram referências para o mundo e para o Harlem, onde Dapper Dan cresceu... DEPOIS DE uma década, ele precisou fechar seu comércio pelo excesso de processo por cópias das marcas de luxo... MAS SE hoje na Louis Vuitton há tênis estampados com a grife, fiquem sabendo que isso se deve à inspiração de Dapper Dan, ele foi o primeiro... HÁ 25 ANOS retirado da moda, vivendo no underground nova-iorquinno, Dapper Dan ouviu o chamamento da moda outra vez, através da marca Gucci. Mas não aquela Gucci que o repudiava e processava, que o esnobava e não queria ser emparelhada com ele... AO CONTRÁRIO, a Gucci que o procurou foi aquela com cifrões nos olhos, que sabe que o jogo agora é outro, que o gueto é tendência, e ninguém melhor do que Dapper Dan para representá-lo de forma glamurizada. Só mesmo Dan para fundir a moda e o hip-hop dos anos 80...ASSIM, um ano, o lendário costureiro do Harlem e a Gucci começaram a trabalhar juntos a primeira coleção dessa parceria que envolve roupas, sapatos, foulards, óculos, bonés e bolsas de couro... A COLEÇÃO foi lançada há uma semana com a divulgação nas redes sociais de 40 fotos feitas por Ari Marcopoulo nas ruas do Harlem, que podem ser também conferidas no site de vendas Gucci.com ... AS CRIAÇÕES refletem à perfeição o estilo da casa de moda italiana e o espírito do designer do Harlem...

Fotos da coluna de Hildegard Angel

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SEPARARAM-SE JOÃO Daniel, filho de Daniel Filho e Beth Faria, e Nathalia Schneider, depois de seu casamento apoteótico, dois dias de festas, num Castelo na França em junho do ano passado. Melhor fez a fi lha do candidato a presidente João Amoêdo, que se casou em março, fez a despedida de solteira em junho na Grécia, e fará a recepção em setembro. 

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Com João Francisco Werneck 



Tags: caderno b, cultura, cultura negra, gucci, hildegard

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