Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Influência do Jazz

Influência do Jazz

Thiago Goes


O improviso entre o passado e o futuro

Jornal do Brasil

Quando o jazz vira assunto na mesa do Jobi ou do Bar Lagoa, sem dúvida, uma das pautas mais efusivas é a evolução do ritmo e suas fusões. E aí a discussão entre os que preferem a vanguarda e os saudosistas acaba em Fla-Flu ou, no atual momento político, em Lula versus Bolsonaro.

Confesso que sou mais partidário dos amantes dos grandes clássicos do que da ala moderninha, que vê o jazz apenas como algo cool. Ainda assim, não posso (e nem quero) fechar os olhos para o futuro. 

Existem sons que, embora não representem o mais tradicional do jazz e de sua história, transbordam talento e merecem ser explorados. O pianista Robert Glasper reuniu um poderoso sexteto da nova geração jazzística para reforçar minha tese, no álbum “Collagically speaking”, do projeto R+R=NOW, lançando pela Blue Note Records em junho deste ano. 

As siglas do projeto significam “respeito e reflexão agora” e homenageiam o discurso da lendária pianista e cantora Nina Simone, que dizia ser um dever dos artistas refletirem sobre os tempos em que estão vivendo.  

Nas 11 faixas do disco, a mistura de sons se mostra uma fascinante busca pelas referências não só do jazz da Costa Oeste, mas pelo neo soul, R&B, hip hop

Nas 11 faixas do disco, feitas em um só take, a mistura de sons se mostra uma fascinante busca (dessas de fechar olhos e ir à caça dos timbres e tons adequados) pelas referências não só do jazz da Costa Oeste, mas pelo neo soul, R&B, hip hop. Apesar de liderados pelo teclado abissal de Glasper, nessa jam, todos os membros se mostram claramente envolvidos, sem egos aflorados.  

Essa celebração de talentosos músicos evidencia a tendência atual do improviso coletivo, em uma nova versão do clássico solo individual a que estamos acostumados no jazz. 

Além de Glasper, o galáctico elenco conta com Christian Scott aTunde Adjuah no trompete, Terrace Martin no sintetizador e vocoder, Taylor McFerrin também nos sintetizadores e beatbox, Derrick Hodge no baixo e Justin Tyson na bateria. O trabalho tem ainda as participações de peso de Mos Def, Amber Navran, Terry Crews e Amanda Seales. 

No topo das minhas preferências, fico, propositalmente, “em cima do muro”. Se “Respond” e “Resting warrior” trazem os elementos que me remetem ao jazz no seu lado virtuoso, “Been on my mind e “Change of tone” exploram mais harmonicamente as melodias, e trazem uma agradável série de teclas e vocais.

Na discussão entre passado, presente e futuro do jazz, o improviso, seja ele individual ou em grupo, deve nortear a fusão dessas fases, criando um perfeito arranjo sonoro com o melhor de cada estilo.

Fundamental relativizar a dicotomia, com respeito e valorização de cada lado. 

Não só no jazz, como na vida.

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Bebop

Jazz brasileiro em Nova York O pianista carioca David Feldman encantou o público do Mezzrow Jazz Club, em Nova York, na semana passada, tendo como convidada a cantora Maucha Adnet. O músico está com novos shows agendados esta semana.

Na batida da Bossa Nova A cantora Fernanda Takai faz dois sets nesta sexta-feira no Blue Note Rio, com Marcos Valle e Roberto Menescal. 



Tags: caderno b, cultura, jazz, música, álbum

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