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Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Inovação JB

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Felipe Ribbe


Uma solução de bilhões de anos

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Você já deve ter ouvido falar que dados são o petróleo da Era Digital. As cinco empresas mais valiosas do mundo – Apple, Amazon, Alphabet (controladora do Google), Microsoft e Facebook – têm na coleta e análise de dados o combustível para manter sua dominância. Com cada vez mais dispositivos inteligentes à disposição e um maior número de pessoas tendo acesso à internet de alta velocidade, a montanha de dados gerados irá crescer exponencialmente nos próximos anos. Um estudo da empresa IDC aponta que, em 2025, serão 163 trilhões de gigabytes produzidos pelo mundo. Com isso, surge um grande problema: como armazenar tamanha quantidade de dados?

Atualmente, a forma mais comum de armazenagem é em fitas magnéticas. Porém, elas têm vida útil curta (precisam ser substituídas em cerca de 10 anos) e custam caro, pois ocupam galpões gigantescos, que consomem muita energia. Somente em 2017, foram investidos US$ 20 bilhões em centros de dados apenas nos EUA. Por isso, cientistas vêm estudando uma nova maneira de armazená-los, eliminando a necessidade de amplo espaço e os custos de manutenção: DNA.

Isso mesmo. O DNA carrega código genético de todos os seres vivos e pode ser usado para armazenar outros tipos de informações, como arquivos de música, vídeos e documentos, por exemplo. Sua alta densidade permite que em um milímetro cúbico seja possível gravar um bilhão de gigabytes, o que tornaria possível colocar todos os dados do mundo em apenas um caminhão. Além disso, a durabilidade não tem precedentes, afinal especialistas já conseguiram sequenciar DNA de 700 mil anos atrás. 

O processo funciona assim: basicamente, todo arquivo digital é um código binário, de 0 e 1. Os pesquisadores pegam esses códigos e os transformam em pares de bases de DNA, os nucleotídeos A, C, G e T. A partir daí são produzidas fitas de DNA de acordo com as sequências criadas e, pronto, os arquivos estão armazenados. Para extraí-los, usam-se máquinas de sequenciamento de DNA para ler os códigos genéticos e transformá-los novamente nos códigos binários.

Potencial e obstáculos

O potencial do uso de DNA para armazenagem de dados pode ser medido pelos investimentos de companhias gigantes, como Microsoft , Intel e Micron, além da Darpa, agência de inovação do Departamento de Defesa dos EUA. A tecnologia, no entanto, ainda está em fase inicial. Até o momento, apenas demonstrações foram realizadas, com músicas, livros e filmes sendo armazenados. Um dos motivos é o alto custo. 

Com as técnicas atuais, estima-se que gravar apenas 12 megabytes em DNA custe em torno de US$ 100 mil. Para que seja competitivo, esse custo precisará cair cerca de 10 mil vezes. Outra barreira é o tempo necessário para codificar e extrair os dados. Hoje, a velocidade para codificar é de aproximadamente 400 bytes por segundo e, para ser adotada comercialmente, a velocidade deverá ser de 100 megabytes por segundo; para extrair, a capacidade deveria ser o equivalente a sequenciar em torno de 10 mil genomas humanos por dia. Hoje, são cerca de três por dia. 

Protótipos a caminho 

Apesar dos obstáculos, a tecnologia vem evoluindo rápido. A Microsoft pretende ter um protótipo de um sistema de armazenamento em DNA em um de seus centros de dados já em 2020. 

A aplicação, em princípio, será voltada para clientes especiais. Já a Catalog, uma startup de Boston, nos EUA, vai além: já no início do ano que vem eles planejam lançar um serviço com foco inicial em dados que são arquivados durante anos e não são comumente acessados, como documentos de agências governamentais e materiais de grandes bibliotecas. 

Para isso, a empresa afirma ter desenvolvido um método mais simples de armazenagem, capaz de diminuir os custos e o tempo do processo, o que o tornaria viável. 

Seja como e quando for, não deixa de ser curioso o fato de que um problema fruto da revolução digital possa ter sua solução em algo tão antigo como o DNA, com seus bilhões de anos de existência.



Tags: dna, era digital, inovação jb, microsoft, revolução digital, tecnologia

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