Jornal do Brasil

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

Jazz

Joey Alexander, o "pequeno gênio" do jazz

Luiz Orlando Carneiro

Há mais de um ano (21/2/2015), esta coluna foi dedicada ao pianista Joey Alexander - garoto-prodígio que não tinha ainda comemorado o 12º aniversário – por ocasião do lançamento do seu primeiro álbum como líder, My Favorite Things, editado pela Motéma, a mesma gravadora que tem no seu elenco estrelas do teclado do brilho dos veteranos Randy Weston, Geri Allen e Monty Alexander.

O menino nascido em Bali, Indonésia, aqui está de volta para o registro e a recomendação do seu novo CD, Countdown, também da Motéma. Só que, desta feita, Joey Alexander (Josiah Alexander Sila na certidão de nascimento) não é mais apresentado e apreciado, apenas, como um wunderkind. Mas, sim, como um prodigioso pianista, independentemente da idade que tem.

O que é realmente impressionante na intimidade do guri com o piano jazzístico – além da técnica – é aquilo que Wynton Marsalis qualificou de “profundidade emocional” do “pequeno gênio”. E a incrível facilidade com que destila a substância do legado de pianistas-compositores magistrais como Thelonious Monk, Herbie Hancock, Chick Corea e McCoy Tyner. E também de “monstros sagrados” não pianistas, particularmente John Coltrane.

Pianista de 13 anos lança o seu segundo CD
Pianista de 13 anos lança o seu segundo CD

O fascínio de Joey Alexander pelas labirínticas progressões ou tramas melódico-harmônicas coltraneanas já estava expresso no seu primeiro disco, na interpretação de Giant steps – a “pedra filosofal” da alquimia do imortal saxofonista, e faixa-título do LP de 1960 da Atlantic que foi um marco do “jazz moderno”.

Pois a faixa-título do segundo CD de Alexander, Countdown (8m45), foi também gravada por Trane (em versões de 2m20 e 4m30) na célebre sessão que gerou o LP Giant Steps. E é interessante registrar que o pianista considera o cromatismo musical de Countdown mais “complicado” do que o de Steps.

No seu novo álbum ele apresenta três composições de sua autoria: City lights (5m45), bem percussiva, com molho caribenho; Sunday waltz (5m20), de melodia e andamento que sugerem um canto dominical das congregações religiosas negras; Soul dreamer (5m40), também reflexiva, com reverências à lógica melódica de Bill Evans.

Além da faixa-título – o prato principal do menu – Joey Alexander e o seu trio (Larry Grenadier, baixo; Ulysses Owens Jr., bateria) recriam os seguintes temas: Smile (4m50), de Charlie Chaplin; Maiden voyage (11m55), de Herbie Hancock, com o ilustre convidado Chris Potter no sax soprano; Criss cross (5m05), de Thelonious Monk; Chelsea Bridge (7m15), de Billy Strayhorn; For wee folks (6m25), de Wynton Marsalis.

Nas notas do CD Countdown, o fenômeno do piano - que soprou 13 velinhas do bolo de aniversário no último dia 25 de junho - assim fala sobre o seu crescente interesse pela arte da composição, à qual passou a dedicar um pouco mais de atenção: “Às vezes, quando estou só praticando, tocando alguma coisa diferente, surgem novas ideias melódicas e rítmicas, e me dou conta de que, na verdade, estou começando a compor uma peça. Acho que escrever temas fortes (strong tunes) vem de ouvir muita música de compositores e artistas do meu gosto. Eu diria que Monk é quem tem mais me influenciado. Ouvir as peças dele tantas vezes teve grande impacto em mim, e foi isso que me inspirou a escrever as minhas próprias peças. Na verdade, acho mais difícil interpretar temas de outros do que os que eu escrevi, porque tenho de decifrar e sentir sobre o que é o tema, e descobrir um jeito de fazer como se fosse meu”.

Tudo indica que Countdown, o segundo álbum de Joey Alexander como líder, vai ser tão bem recebido pelo público e pela crítica como o primeiro, My Favorite Things, que vendeu mais de 50 mil unidades – número muito expressivo em matéria de discos de jazz, num mundo cada vez mais virtual. Além disso, o álbum lançado no ano passado foi um dos cinco indicados para o Grammy 2016 em duas categorias jazzísticas: “Melhor álbum instrumental”, vencedor Past Present (Impulse), do guitarrista John Scofield; “Melhor solo improvisado”, vencedor o baixista Christian McBride com o solo em Cherokee, do CDLive at the Village Vanguard (Mack Avenue). 

(Além de diversos vídeos no youtube – alguns com mais de um milhão de visualizações – a arte de Joey Alexander no novo CD Countdown pode ser apreciada em www.youtube.com/watch?v=EOamAnkVo5c)

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