Jornal do Brasil

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

Jazz

O "Horizonte" de David Feldman

Luiz Orlando Carneiro

Uma lista dos mais brilhantes pianistas brasileiros de jazz em atividade, aqui e lá fora, não pode deixar de incluir o paulista-novaiorquino Hélio Alves, o niteroiense-paulistano André Mehmari e os cariocas Marcos Ariel e David Feldman. Todos eles são donos de técnica e criatividade notáveis, e não podem ser considerados, apenas, praticantes do chamado samba jazz (no qual o jazz é o substantivo e o samba o adjetivo). São músicos completos que não se contentam com a improvisação linear por sobre os acordes de base. Dedicam-se a uma “improvisação composicional” e até a composições “eruditas”, de maior fôlego, como é o caso de Mehmari.

David Feldman, 38 anos, o mais moço desses quatro pianistas, volta a esta coluna na semana de lançamento deHorizonte, o terceiro CD de uma série que se iniciou com O Som do Beco das Garrafas (2009), em trio, e prosseguiu com piano (2014), recital solo em que o título piano com “p” minúsculo refere-se ao clima predominantemente intimista da sessão.

O título do novo disco é uma referência à perspectiva do pianista de tocar cada vez mais suas próprias composições. São de sua lavra sete das 10 faixas de Horizonte, a maioria interpretada em trio (André Vasconcellos, baixo; Marcio Bahia, bateria): Melancolia (4m30), Navegar (5m35), Penumbra (4m45), Adeus (6m20), Sliding ways (7m), Tetê(5m05) e Esqueceram de mim no aeroporto (6m50). (16)

Pianista carioca lança novo CD em trio com novas composições
Pianista carioca lança novo CD em trio com novas composições

Os títulos de uma palavra só das quatro primeiras peças acima listadas bastariam para caracterizá-las como de conteúdo melódico introvertido e de andamento rítmico na base do andante ou do andante cantabile. Mas enquantoMelancolia é realmente melancólica, fincada num tema obstinado de cinco notas, o também belo e insistente achado melódico de Navegar conduz a um irresistível solo de Feldman em tempo médio, na ginga do samba. A introspectivaPenumbra, por sua vez, é levada pelo trio em clima de film noir – bem ao gosto de mestre Ran Blake – com destaque para os efeitos percussivos do baixo de André Vasconcellos. A romântica Adeus também não dispensa a participação ativa de Vasconcelos e do baterista Bahia, que se mostram à altura do líder em matéria de engenho e arte, em constanteinterplay.

O veteraníssimo trombonista Raul de Souza (81 anos quando o CD foi gravado) e o violonista/vocalista Toninho Horta são convidados de David Feldman em três faixas. “Raulzinho” dá o seu recado no “sambão” Sliding ways e em Soccer ball (4m05), tema assinado por Horta, que também se alia ao conjunto. O vocalista/violonista e o pianista (sem seção rítmica) são ouvidos em Tetê, o momento menos jazzístico do álbum.

Esqueceram de mim no aeroporto – peça que, como Tetê, constou do disco solo de 2014 – é recriada pelo pianista e seu trio em magnética performance, com direito a solos intercalados do baixista e do baterista.

As faixas de abertura e de conclusão de Horizonte são, respectivamente, Chora tua tristeza (7m), de Oscar Castro Neves, e Céu e mar (7m35), de Johnny Alf (1929-2010). As duas peças são reinventadas e improvisadas pelo trio comandado por David Feldman com crescente aceleração rítmica e muita empolgação, num show de samba jazz de primeira classe. 

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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