Jornal do Brasil

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

Jazz

Data Lords: O lado guerreiro de Maria Schneider 

Luiz Orlando Carneiro

Neste ano que vai chegando ao fim, Maria Schneider está novamente na capa da edição de dezembro da Downbeat, já disponível na versão virtual. No 81º referendo anual dos leitores da chamada bíblia do jazz, ela foi a vencedora em três categorias: album of the year (764 votos), com o CD The Thompson Fields (Artistshare); compositores (1.988 votos), à frente de Chick Corea (1.181); e arranjadores (2.248), superando Wynton Marsalis (1.409). No quesito melhor big band a orquestra da jazzwoman só não ganhou da Jazz at Lincoln Center Orchestra, dirigida pelo grande Marsalis. Mas o placar foi bem apertado: 2.632 a 2.504 votos.

Num ano particularmente glorioso, La Schneider foi premiada, em fevereiro, com o cobiçado Grammy na divisão large jazzensemble album (The Thompson Fields). E foi também a grande vitoriosa na eleição dos melhores do ano (abril de 2015-março de 2016) promovida pela Jazz Journalists Association (JJA), tendo sido a mais votada em cinco categorias: musician of the year, compositores, arranjadores, orquestras e record of the year (o mesmo The Thompson Fields).

CD The Thompson Fields foi o mais premiado do ano
CD The Thompson Fields foi o mais premiado do ano

Na matéria de capa da última edição da Downbeat, o jazz writer Allen Morrison dá especial destaque à mais recente opusde Maria Schneider para a sua orquestra de 18 membros, comissionada pela Library of Congress (Biblioteca do Congresso), e intitulada Data Lords (os senhores dos dados). A compositora a qualifica de “muito sombria, caótica e intensa”.

Segundo Morrison, a peça “dificilmente poderia ser mais diferente do que The Thompson Fields, que é uma espécie de sinfonia pastoral”. Enquanto este aclamado álbum “é uma evocação majestosa do mundo natural, mais especificamente da espaçosa pradaria de Minnesota, onde ela se criou”, Data Lords “inspira-se na visão distópica de Schneider de um futuro orwelliano, no qual corporações monstruosas coligem informações pessoais sobre qualquer cidadão, e as exploram para colher bilhões em troca, ao mesmo tempo em que tentam persuadir as pessoas de que agem em seu benefício”.

La Schneider – que faz 56 anos no próximo dia 27/11 – é uma mulher muito educada, pacífica, reservada, amante dos pássaros e de seus vôos, bird watcher assumida. Mas é também uma ativista em matéria de direitos autorais dos músicos, desde quando, em 2001, fundou, a cooperativa Artistshare, que produz, edita e distribui os seus discos e de seus associados, com participação direta dos fãs no financiamento e até no processo criativo das obras.

Ela tem mobilizado amigos e colegas músicos num cerco ao Congresso americano para modificar a lei em vigor - o “Digital Millenium Copyright Act (DMCA)” - criada com o objetivo de possibilitar que os serviços da Internet e os artistas trabalhem juntos no combate à pirataria online de obras sujeitas a direitos autorais. Para eles, a lei de 1998, do mesmo ano do nascimento do Google, está desatualizada e “essencialmente violada”.

Numa carta aberta publicada no Music Technology Site, Maria Schneider declarou: “O YouTube é culpado de crime de extorsão. O YouTube tem, seguidamente, desvirtuado, contornado e afrontado o sentido original do antiquado 'porto seguro' do DMCA, criando um maciço esquema de redistribuição de renda para o qual é continuamente transferido o dinheiro que deveria ir diretamente para os bolsos dos músicos e criadores de todos os tipos”. Para a compositora e chefe de orquestra, o YouTube e o Google “canibalizam nossas economias, nossas vidas e nossa arte”.

A propósito, não há nada no YouTube ou em streaming na Internet para que se possa ter um sample da nova obra de Maria

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

Compartilhe: