Jornal do Brasil

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

Jazz

1917: Centenário do primeiro disco de jazz

Luiz Orlando Carneiro

"Há 100 anos, em 1917, o jazz deixou de ser, finalmente, objeto de rumor, e passou a ser artigo de comércio”.

Assim começa o artigo de John McDonough na edição de janeiro próximo da Downbeat, dedicada em grande parte à celebração do ano em que foram gravadas as primeiras “faces” de discos de 78 r.p.m. que podem ser catalogadas como de jazz propriamente dito. A octogenária revista especializada comemora também o centenário de nascimento de três divindades do Olimpo jazzístico: Thelonious Monk, Dizzy Gillespie e Ella Fitzgerald.

A Original Dixieland Jass Band era um quinteto formado por músicos brancos de Chicago
A Original Dixieland Jass Band era um quinteto formado por músicos brancos de Chicago

Por ser um modo de expressão musical em que as partituras são até dispensáveis, a história o jazz é também a história dos registros fonográficos. E esta história começou no início de 1917, quando a Original Dixieland Jass (depois Jazz) Band (ODJB), de Chicago – que estava tocando no restaurante Resenweber's, em Nova York – gravou para a RCA, no dia 26 de fevereiro,Livery Stable Blues e Dixie Jass Band One-Step. Com o sucesso dessas faces, a Columbia lançou logo em seguida duas outras que tinha gravado um mês antes, com a ODJB tocando Darktown Strutters Ball e Indiana.

A ODJB era um quinteto formado por músicos brancos de Chicago que procuravam recriar com reverência – mas de modo um tanto mecânico -o verdadeiro estilo de Nova Orleans do qual foram pioneiros Joe “King” Oliver e Freddie Keppard. Eram eles Nick LaRocca (corneta), Eddie Edwards (trombone), Larry Shields (clarinete), Henry Ragas (piano) e Tony Sbarbaro (bateria).

Assegura-se que Freddie Keppard, um créole que disputava com Joe Oliver (o primeiro patrão de Louis Armstrong) o título de rei dos cornetistas de Nova Orleans, teve a oportunidade de gravar o primeiro disco de jazz. Mas por temer que o seu estilo, capturado por uma nova engenhoca mecânica, fosse copiado, recusou uma proposta que lhe fizera a então Victor Talking Machine. Assim é que, ironicamente, o primeiro disco de jazz foi gravado por copistas brancos, competentes e aplicados, mas não propriamente representativos do verdadeiro estilo créole da Crescent City.

E vale lembrar que os primeiros registros significativos da improvisação coletiva à la Nouvelle Orleans a merecerem – como os bons vinhos – o selo DOC (Denominação de Origem Controlada) só seriam feitos em 1923, em Chicago, pela King Oliver's Creole Jazz Band.

O conjunto de 39 gravações realizadas pela banda entre março e novembro daquele ano, para os selos Paramount, Okeh e Gennett constitui o primeiro acervo significativo do jazz primitivo. Integravam a banda de “King” Oliver os seguintes músicos: Louis Armstrong (segunda corneta), Honoré Dutray (trombone), Johnny Dodds (clarinete), Stomp Evans (sax), Lil Hardin (piano), Bill Johnson (banjo) e Baby Dodds (bateria).

No meu livro Obras-Primas do Jazz (Jorge Zahar Editor, 1986) escrevi:

“Eram todos músicos bem representativos do estilo Nova Orleans: a improvisação coletiva tramada em torno da linha mestra exposta pelas cornetas, num enredo contrapontístico livre, em que o trombone respondia de forma rítimico-melódica as frases da(s) corneta(s), de um modo que ficou conhecido como o tailgate style, e o clarinete ornamentava o tema principal. Tudo por sobre um ritmo binário e bem sincopado fornecido pelo contrabaixo ou tuba, o banjo ou a guitarra, a bateria ou instrumentos caseiros como a washboard (tábua de lavar roupa de madeira)”.

(A gravação de 1917 de Livery Stable Blues pela ODJB pode ser ouvida em: www.youtube.com/watch?v=5WojNaU4-k)

(A gravação de 1923 de Riverside Blues pela King Oliver's Creole Jazz Band pode ser ouvida em: www.youtube.com/watch?v=j_WbQYdQty0)

Tags: Arte, carneiro, centenário, coluna, cultura, dizzy gillespie, ella fitzgerald, jazz, luiz orlando, música, músicos, thelonious monk

Compartilhe: