Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

Jazz

'O Alto Manhattan' de Steve Slagle

Luiz Orlando Carneiro

O saxofonista alto Steve Slagle, 64 anos, é um daqueles respeitados “músicos para músicos”. Embora muito admirado no milieu, não costuma aparecer nas listas anuais dos melhores instrumentistas promovidas pelas revistas especializadas como a Downbeat ou a JazzTimes.

No entanto – como consta do seu site – lançou 14 discos na condição de líder; foi diretor, arranjador e solista da Mingus Big Band durante um longo período; integrou o celebrado noneto de Joe Lovano, cujo CD 52th Street Themes (Blue Note) ganhou o Grammy de 2001 na categoria “Best Large Jazz Ensemble”.

Steve Slagle volta agora às lojas virtuais com o álbum Alto Manhattan (Panorama Records), à frente de um quarteto, tendo ao seu lado Lawrence Fields (piano), Gerald Cannon (baixo) e Bill Stewart (bateria). O conjunto tem como convidados, em três faixas, o eminente Joe Lovano (saxes tenor e mezzo soprano) e, em algumas delas, Roman Diaz (congas), que fornece o necessário tempero afro-cubano.

No seu novo álbum, em quarteto, saxofonista tem Joe Lovano como convidado
No seu novo álbum, em quarteto, saxofonista tem Joe Lovano como convidado

Upper Manhattan (Alto Manhattan ou El Barrio para os hispânicos) é uma parte do Harlem (mais ou menos entre as ruas 97 e 116, East) também conhecida como Spanish Harlem, habitada por muitos portorriquenhos, cubanos, dominicanos e/ou seus descendentes. E é também onde vive o saxofonista-flautista que não é “latino”, mas que foi, no início da carreira, sideman da afamada Afro-Cuban Orchestra do percussionista Machito (1908-1984).

O novo registro de Slagle não é, contudo, dedicado apenas ao Latin jazz. O qualificativo pode ser aplicado à primeira e à última das nove faixas do CD - Family (7m05) e Viva la famalia (6m55) - nas quais atua o conguero Roman Diaz. Em Family, o ilustre convidado Joe Lovano brilha como sempre no sax tenor, solando logo depois do líder no sax alto e antes do emergente pianista Lawrence Fields.

Somente três peças do setlist não são assinadas pelo saxofonista-líder: Inception (5m55), do mestre pianista McCoy Tyner, e título do seu primeiro álbum em trio (Impulse, 1962); I guess I'll hang my tears out to dry (6m30), balada da década de 1940 de Jule Styne; a eterna Body and soul (4m55). A interpretação desta última é particularmente notável, com o sax alto a capella citando Round midnight, de Thelonious Monk, e Lonely woman, de Ornette Coleman.

Steve Slagle toca flauta em Holiday (5m24), escrita em memória do gaitista Toots Thielemans (1912-2016), e na já citada Viva la famalia (com Joe Lovano no mezzo soprano). O sax alto do líder, à frente do quarteto básico, dá um show na parkeriana faixa-título (3m50).

O respeitado crítico de jazz Kevin Whitehead, da National Public Radio (NPR), qualificou o novo álbum de Slagle – notop of his game - de “harmonicamente sofisticado e ritmicamente agressivo”. Além disso, é envolvente, magnético, do início ao fim.

(Ouvir samples de Alto Manhattan em: www.cdbaby.com/cd/steveslagle2)

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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