Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Março de 2017

Jazz

Gary Smulyan, ao vivo, em Paris

Luiz Orlando Carneiro

O sax barítono – o membro mais encorpado e de voz mais grave da família do saxofone – passou a ser ouvido e admirado no planeta jazz graças a Duke Ellington, que fez Harry Carney (1910-1974) trocar o clarinete pelo “bari”, promovendo-o também a solista daquela que foi a mais célebre de todas as orquestras. Seus solos em peças como Sophisticated lady e La plus belle africaine são registros memoráveis da Ellingtonia.

Depois de Carney, na época do bebop e do cool jazz, surgiram os saudosos Leo Parker e Serge Chaloff (ambos morreram antes de completar 40 anos), Cecil Payne e os consagrados Pepper Adams e Gerry Mulligan.

Este último foi um dos fundadores do estilo cool, como instrumentista e compositor do noneto de Miles Davis que gravou, em 1949-50, para a Capitol, o álbum Birth of the Cool (Mulligan escreveu três das 12 peças daquelas históricas sessões: Jeru,Venus de Milo e Rocker). Mas ele ficou famoso mesmo a partir de 1952, quando fundou com o trompetista Chet Baker o quarteto sem piano que seria o epítome do jazz “camerístico” ao lado do Modern Jazz Quartet.

Em novo CD, o saxofonista barítono lidera quarteto europeu
Em novo CD, o saxofonista barítono lidera quarteto europeu

Com as mortes de Pepper Adams (1986, aos 56 anos) e de Mulligan (1996, aos 69 anos) o “trono” de melhor saxofonista barítono ficou sem ocupante incontestável. Mas nos últimos cinco referendos anuais dos críticos da revista Downbeat, Gary Smulyan, 60 anos, e James Carter, 48, foram sempre os mais votados, nesta ordem.

Pois Gary Smulyan retorna este mês às lojas virtuais com o CD Royalty at Le Duc (Sunnyside), à frente de um quarteto integrado por músicos europeus (o pianista francês Olivier Hutman, o baixista italiano Michel Rosciglione e o baterista austríaco Bernd Reiter).

O registro de sete faixas, com mais de uma hora de duração, foi feito ao vivo, ano passado, no Duc des Lombards, que é um dos três melhores clubes de jazz de Paris (os outros são o Sunset/Sunside, também na Rue des Lombards, e o New Morning).

Smulyan é o principal herdeiro estilístico de Pepper Adams que – como escrevi no Guia de Jazz em CD, Ed. Zahar, 2ª ed., 2002 - “foi o mais rápido, ágil e contundente dos que sopraram o pesado instrumento no estilo hard bop, enfrentando com sucesso – sem perder a lucidez e a beleza de seu discurso melódico – o registro grave com a mesma facilidade com que chegava ao agudo”.

Em Royalty at Le Duc, o big horn de Smulyan alonga-se com vigor em Thedia (12m50) e Elusive (13m), duas peças do trompetista-compositor e band leader Thad Jones (1923-1986), em cuja orquestra tocou durante alguns anos, sempre às segundas-feiras, no Village Vanguard.

O quarteto do notável saxofonista interpreta ainda: as baladas Laura (7m15), com longa coda de Smulyan, e Body and Soul(12m10), em tempo bem mais rápido do que o normal; The star-crossed lovers (8m45), da suíte Such Sweet Thunder, de Duke Ellington; Serenity (11m15), do saxofonista Joe Henderson; Cindy's tune (11m55), de Pepper Adams.

O pianista Olivier Hutman merece especial menção. Além de jazzman, ele foi acompanhante de cantores famosos como Yves Montand e Charles Aznavour e, destacou-se como compositor de trilhas sonoras de filmes de Bertrand Tavernier e Alain Mazars.

(As faixas Thedia e Laura podem ser ouvidas em: http://sunnysidezone.com/album/royalty-at-le-duc)

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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