Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

Jazz

Dick Hyman, lenda viva do jazz

Luiz Orlando Carneiro

Todo ano, desde 1982, a National Endowment for the Arts (NEA) confere o título de jazz master a “lendas vivas” do jazz, em reconhecimento de suas “contribuições excepcionais” ao desenvolvimento desse modo de expressão musical. A NEA é uma agência independente do governo dos Estados Unidos, sediada em Washington, que apoia e financia projetos de arte “de particular excelência”. 

No dia 3 de abril, o pianista Dick Hyman vai receber, no John Kennedy Center for the Performing Arts, o título oficial de “mestre do jazz”, além de um prêmio de US$ 25 mil. Até com muito atraso! É que ele completa 90 anos – ainda ativo – neste próximo dia 8 de março.Dick Hyman é um craque do teclado e uma enciclopédia viva do jazz piano, autor de uma série de cinco CDs que é uma incrível visão panorâmica, solo, de todos os estilos e estilistas, de Jelly Roll Morton a Thelonious Monk e Lennie Tristano, passando por Earl Hines, Duke Ellington, Art Tatum, Bud Powell e Bill Evans. Além disso, ele é o responsável pelas trilhas sonoras (e eventual intérprete de passagens musicais) de uma dúzia de filmes de Woody Allen, tais como A rosa púrpura do Cairo, Stardust memories, Radio Days,  e Hannah e suas irmãs. 

Pianista faz 90 anos, e recebe título de jazz master da NEA
Pianista faz 90 anos, e recebe título de jazz master da NEA

Da discografia mais recente de mestre Hyman citem-se seus três últimos álbuns, todos lançados por selos independentes: Dick Hyman & Ken Peplowski: Live at the Kitano (Victoria Records, 2012), registro em duo, ao vivo, no aconchegante bar do Hotel Kitano, na Park Avenue de Nova York; Lock My Heart (Red House, 2013), em dupla com a refinada vocalista Heather Masse; House of Pianos (Arbors, 2015), recital solo gravado na Farley's House of Pianos, em Madison, lá no estado de Wisconsin.

Nas liner notes deste CD de 10 faixas, Hyman garante que quando se senta no banco do piano para um concerto, não tem planejada uma determinada sequência de temas: “Tenho, mais ou menos, um punhado de músicas na cabeça, e vou em frente, decidindo na hora o que vou tocar em seguida”.

No caso de House of Pianos, ele devia estar, naquele dia, muito a fim de Thelonious Monk, pois três das 10 faixas do CD são composições do “Eremita do bebop”: Blue Monk, Ugly Beauty e Misterioso. 

Mas as outras peças interpretadas no recital variam em torno de standards bem conhecidos, como as baladas Yesterdays (Jerome Kern) e Send  in the clowns (Stephen Sondheim), além da sempre animada Sweet Georgia Brown (canção da década de 1920) e a imortal All the Things you are (também de Kern). A célebre Take the A Train (de Billy Strayhorn, e prefixo da orquestra de Duke Ellington) encerra o disco, depois de um interlúdio de pouco mais de dois minutos com o tema de The purple rose of Cairo. 

Nascido em Nova York em 8 de março de 1927, Dick Hyman começou como pianista de uma banda de Dixieland; tocou com o saxofonista Lester Young quando da abertura, em 1949, do legendário clube Birdland, “the jazz corner of the world”, na esquina da Rua 52 com a Broadway; e é o pianista cujas mãos aparecem solando no único registro existente de um quinteto Charlie Parker-Dizzy Gillespie que se apresentou num programa de televisão de 1952, tocando Hot house (www.youtube.com/watch?v=EKiyq1VoAZs).(Um vídeo de Dick Hyman na House of Pianos, de junho de 2014, pode ser apreciado em: www.youtube.com/watch?v=qPEr0PZ7BU4).

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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