Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

Jazz

Chano Dominguez: Jazz com toque flamenco

Luiz Orlando Carneiro

“A música exige o alerta da inteligência e o descuido da emoção” é uma frase que não encerra, apenas, um truísmo. A exigência pode ser comprovada na arte dos melhores jazzmen, que praticam um modo de expressão musical – e não um tipo de música – que Whitney Balliett chamou de The Sound of Surprise, título do seu referencial livro de ensaios publicado há mais de 50 anos.

Inteligência e técnica refinadas, emoção e intuição criativa em doses certas são os atributos que distinguem o eminente pianista-compositor Chano Dominguez, cujo CD Over the Rainbow vem de ser lançado pelo selo Sunnyside.

Nascido há 56 anos, em Cádiz, na Andaluzia, Chano Dominguez, é um jazzman que se dispõe a irrigar a música que cria e interpreta com a modalidade tonal e a intensidade emocional típicas do flamenco, de modo semelhante ao que fazia, na guitarra, o inesquecível – e também andaluz – Paco de Lucía (1947-2014). Mas o virtuose do piano exibe também a sua mestria na recriação harmonicamente elegante, à la Bill Evans, de temas do cancioneiro americano, como a conhecidíssima balada de Harold Arlen, de 1939, que é a faixa-título desse novo álbum solo, gravado ao vivo, em fevereiro de 2012, no Palau Falguera, em Barcelona.

Para essa seleção de 10 faixas, o pianista andaluz radicado em Nova York elegeu três peças memoráveis do repertório jazzístico: Evidence(5m15) e Monk's Dream (6m), de Thelonious Monk, o “High Priest of Bebop”; Django (6m50), de John Lewis, que virou marca registrada do Modern Jazz Quartet, a partir do LP editado em 1956.

Pianista andaluz radicado em Nova York lança álbum solo de 10 faixas
Pianista andaluz radicado em Nova York lança álbum solo de 10 faixas

Na reinvenção de Django é particularmente notável o emprego por Dominguez de tremolos típicos do flamenco e de um ritmo levemente dançante sem que seja “desrespeitado” o espírito introvertido da composição de Lewis em memória do guitarrista cigano Django Reinhardt (1910-1953).

Chano apresenta duas composições de sua autoria, ambas dedicadas a seus filhos: a contemplativa Marcel (9m) e a movimentada Mantreria(6m15). O título desta última junta a palavra “mantra” com “bulería” (ritmo rápido em ¾) e anuncia uma improvisação densa a partir de um fraseado flamenco que acaba por adquirir uma entonação acentuadamente bluesy.

O programa do recital inclui também temas populares latino-americanos como os cubanos Drume negrita (5m15) e Hacia dónde (7m10); o chileno Gracias a la vida (9m35), de Violeta Parra; e o argentino Los ejes de mi carreta (5m10).

Em 2012, o pianista tinha lançado, com muito sucesso, à frente de um trio percussivo, Flamenco Sketches (Blue Note), que foi um dos cinco indicados para o Grammy na categoria “Latin Jazz”. Naquele CD – gravado ao vivo do clube Jazz Standard, Nova York, em 2009 – ele reinventou os temas constantes do antológico Kind of Blue (Columbia, 1959), de Miles Davis.

Agora, em Over the Rainbow, Chano Dominguez reafirma a sua arte admirável. Como observou o crítico Paul Rauch, ao conceder ao novo álbum a nota máxima de cinco estrelas no site All About Jazz, “para o ouvinte não familiarizado com a obra de Dominguez, o registro serve como uma amostra de seu impressionante virtuosismo”. E, “para os já engajados na sua viagem musical, representa um instantâneo (snapshot) na direção de novos horizontes”.

(As faixas DjangoMantreria e Over the rainbown podem ser ouvidas em: http://sunnysidezone.com/album/over-the-rainbow)

Tags: Artigo, coluna, jazz, JB, luiz, orlando

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