Jornal do Brasil

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

Marcus Ianoni

Urnas liberal-conservadoras e alienação eleitoral 

Marcus Ianoni

A vitória em primeiro turno do candidato tucano João Dória à prefeitura de São Paulo constitui a locomotiva do comboio de votos arregimentados pelo espectro partidário liberal-conservador no primeiro turno das eleições municipais. Com o deslocamento do PMDB, desde a publicação do documento “Uma ponte para o Futuro”, da centro-esquerda para a centro-direita, esse partido e o PSDB, ambos pertencentes à base do governo Temer, que já conquistaram, no domingo, respectivamente, 1028 e 793 prefeituras e estão em segundo turno em 6 e 8 capitais, se afirmam, nesse momento, como o principal campo de forças partidário propulsor da resposta conservadora à crise brasileira. Mas o primeiro turno foi caracterizado também pela alienação eleitoral.

A campanha foi curta e impregnada de temas nacionais (Operação Lava Jato, impeachment, reforma trabalhista). Em segmentos numericamente importantes do eleitorado, fortaleceu-se a postura, já presente na conjuntura das manifestações de 2013, de rejeição à política, cuja outra face da moeda foi o discurso de alguns candidatos-chave defendendo sua condição de não políticos, não ideológicos e tecnocráticos. Não à toa está se construindo a estrada da ilusão, que vai e volta da escola sem partido ao reino imaginário da política partidária sem políticos.

Não à toa, também, cresceu expressivamente a soma dos votos brancos, nulos e abstenções, a chamada alienação eleitoral. Segundo o UOL, em nove capitais, essa soma venceu o primeiro turno. As primeiras informações apontam para 35% de alienação eleitoral no conjunto do país. O sistema representativo foi claramente colocado em xeque, evidenciando a urgência da reforma política, embora não exista consenso sobre quais as melhores alternativas. Aliás, em relação às instituições políticas, essas eleições inauguraram a proibição do financiamento empresarial. Segundo a imprensa, houve R$ 4 bilhões a menos de doações, pois apenas pessoas físicas puderam contribuir, sob o teto máximo de 10% dos rendimentos brutos do ano anterior à eleição.

Em relação aos partidos à esquerda, as urnas mostraram dois pontos, a forte perda de espaço do PT e o fortalecimento do PSOL. Em 2012, o PT conquistou 627 prefeituras, enquanto no último domingo, apenas 256, sendo somente uma capital (Rio Branco). Como em 30 de outubro vai para o segundo turno em Recife e em 6 cidades com mais de 200 mil eleitores, poderá diminuir um pouco esse seu desempenho ruim, que o deixará distante dos grandes centros urbanos – como São Bernardo, Diadema e Guarulhos, na Grande São Paulo –, expressão contundente de sua crise e do comprometimento de sua imagem, após um longo período em que a agremiação surfou na crista da onda do sistema partidário. O partido também teve desempenho ruim em Belo Horizonte e na capital carioca, onde sua coligação com o PCdoB, através da candidatura de Jandira Feghali, não decolou. Por outro lado, o crescimento do PSOL, que vai ao segundo turno no Rio de Janeiro e Belém, expressa um desempenho melhor desse partido de esquerda, até o momento, na capacidade de se capitalizar politicamente enquanto alternativa democrático-progressista à via liberal-conservadora que conduziu ao impeachment e às políticas de austeridade fiscal, monetária e de aprofundamento da dependência nacional implementadas pelo governo federal. Provavelmente, seu maior desafio na cidade do Rio de Janeiro, seja distribuir mais os votos de Marcelo Freixo no subúrbio, onde Marcelo Crivella até aqui mostrou mais penetração.

Mas, apesar da novidade representada pelo PSOL, o conteúdo maior das urnas, considerando-as nacionalmente, é o avanço da capitalização política do bloco partidário liberal-conservador como resposta à crise brasileira (PSDB-PMDB-PSD-PP-PTB-PR-DEM, entre outros, como o PSB pós-Eduardo Campos). Houve também aumento da fragmentação partidária à direita do espectro ideológico. Note-se que o PP, altamente comprometido na Lava Jato, mas não bombardeado pela grande mídia, conquistou 467 prefeituras no primeiro turno em 2012 e agora já venceu em 496. Haverá segundo turno em 55 cidades, das quais 18 são capitais. O horizonte que norteia o comportamento dos principais atores políticos, sobretudo nos grandes partidos, como o PMDB, o PSDB e o PT (agora já não tão grande), calculado e lastreado tanto em seus próprios interesses imediatos, como também nos mediatos, que representam ou pretendem representar, são as eleições gerais de 2018.

Não é novidade que as crises do capitalismo, tal qual a que ocorre hoje no mundo, com evidente repercussão no Brasil, são momentos ímpares de mudanças na economia e na política. Nelas, como mostra, por exemplo, a obra de Peter Gourevitch (“Politics in hard times” – “Política em tempos difíceis”), direita, centro e esquerda se reposicionam no campo de disputas e algumas opções de políticas públicas emergem e outras submergem, a depender das condições nacionais específicas dos países. No passado, as respostas à Longa Depressão, à Grande Depressão e à crise dos anos 1970 foram informadas por ideários como liberalismo clássico, nacionalização e planejamento, protecionismo, mercantilismo e estimulação da demanda (keynesianismo). A escolha dessas opções de política dependeu das coalizões sociopolíticas e partidárias realizadas.

Uma análise não simplista e contextualizada pode desvendar as alianças que vinculam o Estado, por meio das elites políticas e da burocracia pública, à economia e à sociedade, os partidos, nos governos e fora deles, às classes, enfim, os atores aos interesses. Na atual crise brasileira, o bloco neoliberal retomou a iniciativa política e uma agenda conservadora na economia e contra os direitos de cidadania veio à tona, ao mesmo tempo em que as instituições exalam seu déficit de coerência e estabilidade, tornando-se incertas e voláteis. Aquilo tudo que já não era sólido se desmancha no ar. O pano de fundo das eleições é a rejeição da agenda social-desenvolvimentista pelo ideário ora hegemônico, o prosseguimento do abono tácito ao combate seletivo à corrupção, o enfraquecimento do PT e de Lula enquanto alternativa para 2018 e a abertura de caminho para a permanência do projeto neoliberal nas ações governamentais. O que está em jogo é como governar o capitalismo e quem ganha e perde com as escolhas feitas. Como é a direita que está na ofensiva, o mar está hostil para os peixinhos que nadam na base da pirâmide de estratificação social desse país extremamente marcado pela desigualdade. Mas a alienação eleitoral é uma péssima alternativa.

* Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador das relações entre Política e Economia.

Tags: Artigo, brasil, ianoni, marcus, política

Compartilhe: