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Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Música em Pauta

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Mariana Camargo


John Adams, um compositor minimalista?

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O compositor mais famoso da música contemporânea nos EUA, John Adams, continua pouquíssimo conhecido no Brasil. Diferente de Philip Glass, que se tornou “pop star” entre os brasileiros, o fenômeno do desconhecimento de Adams aqui é algo meio inexplicável. Então é mais que chegada a hora de incluir esse interessantíssimo compositor nos salões de música daqui. No resto do mundo, onde a música contemporânea corre solta, teatros o disputam em suas programações.

Adams tem uma agenda intensa nos próximos anos, que inclui sua atuação como regente de peças suas e de outros compositores. Neste mês, sua ópera “Doctor Atomic” terá temporada no teatro Santa Fe Opera”, Novo México, EUA. Nela Adams se juntou outra vez ao libretista e diretor Peter Sellars, como em óperas anteriores (“Nixon in China” e “The Death of Klinghoffer”). “Doctor Atomic” acontece em Los Alamos, durante o verão de 1945, quando a primeira bomba atômica foi detonada. O libreto é retirado de documentos do governo e de entrevistas dos envolvidos misturados às poesias de Baudelaire e Muriel Rukeyser, aos Sonetos Sagrados de John Donne e a trechos do Bhagavad Gita. Sobre o libreto, Peter Sellars conta aos risos: “É maravilhoso poder cantar a plenos pulmões segredos oficiais”. 

Muitas vezes considerado compositor minimalista, Adams rejeita o rótulo: “Não sou compositor minimalista. Essa pergunta normalmente só me fazem na Europa. Hoje em dia, nos EUA, nós reconhecemos que minimalismo foi um estilo importante nos anos 70. Penso que meus primeiros trabalhos – peças como ‘Nixon in China’ e ‘Shaker Loops’ - têm muitas influências e procedimentos minimalistas, mas vejo esse estilo apenas como inspiração. Para mim, era rígido demais e não suficientemente expressivo. Eu diria, então, que minimalismo é um elemento na minha caixa de ferramentas.”

Adams tem uma agenda intensa nos próximos anos, que inclui sua atuação como regente de peças suas e de outros compositores

MC: Como você vê a música de hoje? 

John Adams: Acho que os compositores, em especial os jovens que estão nos seus 20, 30 anos, veem toda a música como possível de ser usada. Eles usam atonalidade em algumas passagens, em outras usam minimalismo, usam música tonal. Eu não acho que estejamos em um período de um estilo único, de uma pureza estilística. E acho isso uma boa coisa.

Mas isto é também a descrição de como os compositores têm trabalhado nos últimos 50 anos... 

Sim, penso o mesmo, e algo interessante, por exemplo, é ver que atualmente Mahler é um dos compositores mais populares. Mahler é o que eu chamaria onívoro (risos), quero dizer um animal que comeria de tudo. Você pode ouvir em Mahler o contraponto de Bach, você pode ouvir influências de Wagner, da música folclórica húngara, pode ouvir tudo isto porque ele pôde ver o passado inteiro para compor.

O governo Trump afeta seu trabalho? 

Penso o que todos artistas parecem estar perguntando. Neste momento muito sombrio da América, nos perguntamos o que o resto do mundo pensa de nós. A maioria dos meus trabalhos no palco tem conteúdo político muito forte. 

Em que tipo de música você tem trabalhado? 

Há pouco menos de um mês terminei um concerto de piano para Yuja Wang, que estreia em março com a Filarmônica de Los Angeles. Uma pianista fantástica! 

Alguma coisa para adicionar à nossa conversa? 

Eu sinto muito que mais gente não saiba sobre Elis Regina nos EUA (risos), ela era genial!



Tags: caderno b, cultura, john adams, mariana camargo, música

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