Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Renê Garcia Jr.


Copa do mundo: uma trégua aos problemas

Jornal do Brasil

O brasileiro tem algumas tipicidades interessantes, e uma delas está associada à existência de um comportamento quase que programado da população de dar uma certa trégua aos assuntos complexos e às decisões que exigem maiores reflexões durante o período da copa do mundo. 

A cada quatro anos, uma imensa parte da população descola das necessidades e preocupações diárias, e passa a viver uma espécie de sonho, em que a grandeza esperada de sua seleção de futebol torna-se o tema mais importante e o principal foco de suas preocupações. Trata-se do velho lema da “pátria de chuteiras “, que toma a face de um grito incontido de superioridade nacional, mesmo depois do fracasso da seleção canarinho na última copa, com a vergonha da derrota humilhante frente a Alemanha. O sonho de ser o melhor do mundo, de admiração universal, de alguma forma, ainda está presente no coração e na mente dos brasileiros .   

O tema é interessante nos dias de hoje, pois mesmo que haja uma aparente distância de uma parcela da população quanto à mobilização nas ruas, e um certo desinteresse no que diz respeito às comemorações em público, o que percebemos é um envolvimento e um sentimento de fé da torcida. É claro que a percepção é subjetiva, pois envolve a análise de uma amostra. Contudo, as ruas vazias nos dias de jogo e a reação ainda discreta e tímida de empolgação sinalizam  uma esperança, uma  certa vergonha pelo amor escondido, a ausência do grito, da explosão nas ruas, tudo conexo com a traumática associação da camisa canarinho com os movimentos de cunho conservador de 2016. 

A classe média revelou-se como o personagem principal de um tempo de demandas e apelos, mesmo ainda não reconhecendo que, por seus gestos, deu a base para a legalidade a um governo que não conseguiu materializar, em atos e ações, as expectativas de mudanças contida na preferência dos que foram às ruas.

Ainda é cedo para a construção de uma explicação mais criteriosa sobre o “espírito do tempo” das manifestações de 2016, pois, ao contrário das passeatas de 2013, que tiveram um teor e um discurso mais anárquico e identitário, incorporando um amplo espectro de agentes, em que a resultante de todos esses vetores apontavam para um enorme desejo de representação e aversão ao que estava sendo percebido como uma doença do processo de representação, mesmo que de modo minoritário. De fato, o movimento foi marcado pela presença de  personagens agressivos e um certo culto à destruição, mas, em  termos práticos, o resultado das ações de 2013 foram praticamente nulos.   

Em 2016, o movimento incorporou um discurso ideológico claro e bem nítido. Apesar de  não  expressar apologias a partidos de direita, o movimento tinha apelos fortes de cunho nacionalista, aversão a tudo a que se refere a “direitos humanos” e ódio aos que denominavam como agentes bolivarianos e comunistas, com  componentes de um moralismo relativista e aversão à corrupção praticada  elo partido que agregava seus  inimigos, a quem creditavam a origem do mal e a fonte da desgraça do seu mundo.

Essa verdadeira incubadora de ideologia criou o que hoje identificamos como o nascimento de uma tentação totalitária, que tem como pedras fundamentais de seu discurso o apelo à destruição dos partidos, a desconstrução da política tradicional e a opção preferencial pela “vontade do poder”. Para esse grupo, a política atrapalha, a democracia é vista como algo descartável e o Brasil necessita de um governo forte e autoritário, de preferência, exercido por alguém que não tenha compromisso com os valores expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos incorporados à Constituição brasileira, em especial a complacência com o que identificam como os excessos de proteção social. Uma característica importante desse grupo é a visão simplista quanto aos problemas econômicos. Na verdade, essa massa tem por identidade a presença de fragilidade em seus argumentos quando temas importantes são colocados.

Ainda é cedo para estabelecermos previsões para o cenário das próximas eleições gerais, e até mesmo para expressar a dimensão e o tamanho que tal movimento de caráter e tendência autoritária que pode vir a ter, e qual será o seu protagonismo. O que é possível traçar é o reflexo de tal movimento na política nacional.

Pela primeira vez, em décadas, a direita perdeu a vergonha de se revelar e dizer seu nome  estando profundamente impregnada em vários segmentos da população, onde o corte de idade, gênero e faixa de renda demonstram que, à exceção das mulheres, a recepção aos apelos da ideologia é forte. Interessante notar que tal realidade não expressa preferências partidárias, mas tão somente a identidade de um “salvador” de um agente da “espada” que vier a deflagrar o fim dos políticos e da política pelo uso da força e da autoridade. 

Nesse aspecto, cabe questionar aos partidos de centro e de esquerda, se o “ovo da serpente” e o risco de um crescimento de ódio e desprezo pela democracia não seriam, em si, o suficiente para uma agenda comum, à criação de anteparos e eventualmente de alguma unidade. 

Quanto à seleção brasileira de futebol e o seu desempenho futuro na Rússia, só nos cabe os votos de sucesso, sabendo que a correlação positiva entre resultado em copas do mundo e a política há muito foi desfeita. 



Tags: corrupção, direita, direitos humanos, partido, política

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