Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Renê Garcia Jr.


Tempos estranhos

Jornal do Brasil

A sociedade brasileira diariamente é agredida por inúmeras variedades de artefatos explosivos. Os acontecimentos de domingo revelaram a agonia e estágio da deterioração de uma instituição de deveria ser o ponto de equilíbrio e o guardião dos valores e princípios que norteiam a república. 

A todos e a tudo em qualquer estágio da esfera política, é imputado um conjunto de impropérios, acusações, denúncias, injúrias, conspirações e tramas. Um volume enorme de lama e material tóxico é exposto de forma redundante e, a cada nova teia de revelações, um susto, um torpor, uma indignação - uma fragmentação da política enquanto práxis e da democracia enquanto fundamento. Tentativas de violação dos preceitos fundamentais do sistema de representação da vontade popular e a substituição da soberania do voto, com a desculpa do saneamento seletivo dos males da política.

Ocorre que, a despeito do direito a “autonomia da expressão” de todos os segmentos da sociedade, como preceito universal, em nenhum momento tais reverberações podem ser apoiadas enquanto uma tentativa de violação constitucional.

O desenrolar dos fatos apreciados ao longo dos últimos anos e as punições oferecidas, enunciam para um grupo da sociedade que tais “sentenças” foram utilizadas para estancar a sangria, daquilo que segmentos do judiciário, entendem como uma licença para desvios, por conta de uma purificação do ambiente político e a necessidade de exclusão de detentores do poder de um passado próximo.

No entanto, em uma análise mais rigorosa, acreditamos que tais atos não podem ser aceitos e até mesmo utilizados como uma “chicana “ para uma revisão constitucional, executada pela interpretação de uma maioria simples de membros da corte constitucional, e a consequente formação de um direito punitivista singular e direcionado para a exclusão de “ determinados acusados”.

A crise que se desnuda aos nossos olhos é, essencialmente, uma deformação, uma imagem refletida de uma sobreposição de quadros, figuras e posturas que feriram de forma dolorosa e traumática os preceitos de respeito com a res pública, onde contumazes líderes de matilhas encontraram, em pasto verde, ovelhas malhadas, e uma inacreditável aliança foi montada entre eles.

Formando uma parceria jamais imaginada por Esopo em suas fábulas - lobos e ovelhas degeneradas, em conluio, formaram uma associação com o objetivo de fornecer “liberdade” de ação aos predadores ao livre desfrutar da carnificina das ovelhinhas brancas -, dando às “malhadas” a liberdade ao desfrute e ao deleite do pasto farto. Contudo, para o pleno gozo do banquete, novos personagens foram chamados e acordos selados. Por fim, acabou o verde e extinto foi o pasto.

Como sabemos da história, em cada fábula encontramos um preceito moral e uma mensagem. A tragédia nunca termina, pois, sua maldição é a repetição ad nauseam de forma irremediável, como um exemplo de um destino traçado em um curso forçado, em uma espécie de domínio do eterno retorno.

Um chamado à reflexão 

No entanto, para desfrute da História dos Povos, o que vale como uma máxima destinada às pessoas não é válido para sociedades, povos e nações. O que se anuncia como uma grave crise política pode e deve ser um elemento, uma lição para uma refundação de valores, princípios, posturas e práticas, elementos estes indispensáveis ao fortalecimento do Capital Cívico, ou seja, o estoque de crenças e valores que estimulam a confiança e a propensão a cooperar e a coordenar as atividades entre as pessoas de uma sociedade. 

Daí o nascer da possibilidade de um enorme esforço para um chamado à Conciliação - a união em torno de uma agenda que congregue elementos para uma “desconstrução” da tensão e da angústia que toma conta das mentes e dos corações de uma parcela da sociedade. Ressentimento, Raiva, Ódio e Ira, quando associados ao sentimento de Vingança como um preceito absoluto, contribuem para a gênese de confrontos indissolúveis e a posturas de beligerâncias infindas.

O momento exige a sobreposição de interesses paroquiais a um rito de passagem e transição para uma situação de maior conforto. Uma espécie de trégua, um chamado ao entendimento, como forma de garantir o bom funcionamento do embate de Outubro de 2018 – É hora de uma reflexão acerca do protagonismo de “figuras“ de um reality show diário, em que a cada movimento, novos personagens são chamados ao confinamento em uma contínua exposição de tramas e ardis – fases de um procedimento cuja rotina viola os fundamentos do devido processo legal, cláusulas constitucionais pétreas.

A justiça feita pelo clamor de um grupo, ao som de pregações, que, em tese, podem ser confundidas com a máxima contida na famosa frase de Lucius Calpurnius Piso Caesoninus: Fiat iustitia, ruat caelum (Faça-se justiça, ainda que venha abaixo o céu.). No entanto, deve ser refletida em conjunto com a preocupação esboçada por Tito Lívio: Fide abrogata, omnis humana societas tollitur (Se a Fé for revogada, perde-se toda a sociedade humana.).

Aqui, cabe ressaltar a imperiosa necessidade de um amplo conjunto de reformas focadas na procura de fontes sustentáveis ao equacionamento das questões voltadas para a redefinição do papel e do protagonismos do próprio Estado, longe das demandas rasteiras de segmentos da sociedade, cuja lógica extrativista encontra eco nos discursos de alguns programas de governo, de certos candidatos descompromissados com os legítimos direitos dos oprimidos.

Hoje vivemos a dominância da Politização do Judiciário e um choque contínuo de tensões entre agentes políticos, o que não é bom enquanto experimento democrático, podendo ser visto como um verdadeiro teste de esforço às Instituições. Que, não pode, nem deve servir de pretexto para um longo processo de sangramento e uma fonte de hemorragia mortal. 



Tags: democracia, justiça, outro lado da moeda, política, sociedade

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