Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Renê Garcia Jr.


Eis que é chegada a hora da verdade

Jornal do Brasil

“... a alternativa da dominação de uma facção sobre outra, quando aguçada pelo espírito da vingança ... é em si uma espécie de despotismo assustador.” George Washington

Terminado o período de férias forçadas, por conta da copa do mundo de futebol, paulatinamente a rotina da política e economia nacional volta ao normal. 

Os indicadores de preços e de atividades do último trimestre revelaram o tamanho e a extensão da crise provocada pela paralisação dos caminhoneiros. A alteração na taxa de inflação medida no período, por sua vez, indica que os preços relativos a alguns segmentos foram alterados fortemente, e um pequeno núcleo de produtos teve uma forte elevação de preços, em especial os itens relacionados aos preços administrados - energia elétrica, combustíveis etc (11,80% em doze meses).

Contudo, tal desvio de tendência da meta de inflação deve ser visto como algo temporário, e, ao longo dos próximos meses, o patamar de inflação deve retornar ao nível esperado no início do ano – algo em torno de 3,5% a 4.0%. O efeito negativo sobre o nível de atividade é o que terá desdobramento mais longo, por conta da perda de produção, principalmente industrial (13,3%), e parte da produção agrícola, por conta do descarte e perda de produção. A aventura da paralisação do movimento grevista teve um custo estimado de 0,3% anualizado e de R$ 14 Bilhões em subsídio  

Tudo indica que a taxa de variação do produto interno bruto (PIB) para o ano de 2018 convirja para algo próximo a 1.0% ou 1,5 % no ano, sendo o quinto ano de perda de produto per capita e, por conseguinte, que o nível de emprego continue estabilizado em torno dos 13.0%. Tal cenário explicita de forma clara a impossibilidade de avanço de qualquer candidatura à presidência da república que venha embalada com o discurso de defesa do atual governo e de suas ações. Daí a enorme oportunidade para as candidaturas que escolherem a oposição a tudo que representa a gestão Temer como tema de sua campanha e núcleo de programa de governo. 

O verdadeiro foco da campanha de 2018 deve ser a retomada do crescimento e discussão das bases para uma ampla reforma do Estado, que há de incorporar elementos no discurso de responsabilidade com a questão fiscal, mas que aponte de forma clara a revisão dos deslizes das últimas gestões, com combate a privilégios, corrupção, violência e que, acima de tudo, não pactue com práticas de conluio e subordinação aos setores fisiológicos do Congresso Nacional. 

Ganham pontos os candidatos que explicitarem em suas promessas de campanha a subordinação de suas propostas de governo e implantação de reformas ao referendo popular, como um instrumento legítimo a superar os eventuais “ataques especulativos” de grupos do Congresso Nacional, que subordinam o apoio a governos, a distribuição de nacos dos cargos da administração federal  onde parcela do orçamento federal é  colocada  para o desfrute de arranjos entre  seus membros  .   

Dessa constatação, poderemos entender o caminho possível para os próximos movimentos dos partidos políticos e das candidaturas viáveis e passíveis de crescimento ao longo dos próximos meses, partindo da premissa base de que o processo eleitoral é dominado por alguma  lógica racional sujeita às mesmas regras de comportamento que regem as escolhas de mercado - compra e venda de ideias -, em que  propostas de candidatos são direcionados a demandantes de ideias e promessas de bem-estar, eleitores,  em que grupos ideológicos são matizes diferenciadas de um conjunto de ofertantes, que processam as eleições como um momento de captura de " assemelhados ocasiomais",  para junto extraírem a maior fatia do que venha a ser definido como “exercício do poder”. 

No Brasil, o número de leitores claramente cativados pelo voto ideológico, não religioso, (escolha de posições dogmáticas embasadas por uma forma particular de ver o mundo) é algo próximo aos 17 milhões, número de filiados aos trinta e oito partidos políticos registrados. Somente uma parcela de um terço desse número, conforme pesquisa patrocinada pelo Departamento de Ciência Política da Unicamp, publicada recentemente pela revista da Fapesp, tem como motivação principal de sua filiação a identidade de suas convicções políticas com a sigla filiada.

Mas, como sabemos , a  política e eleições gerais são carregadas de emoções e paixões, uma parcela majoritária de votos de eleitores, pode incorporar tais sentimentos de forma maniqueísta, o que  pode acabar  proporcionando um resultado convencional  para o pleito, sendo certo que a capacidade de aglutinação das duas principais agremiações partidárias, que vem disputando os últimos seis pleitos , deve continuar prevalecendo. 

As expectativas para o confronto em outubro

Mesmo correndo o risco de erro de avaliação, a percepção que temos aponta para a hipótese de que o andar do processo eleitoral de 2018, e por conseguinte do humor do mercado financeiro e da economia , vai girar em volta da viabilização de duas candidaturas, uma que assegure aos proprietários do capital que seus privilégios e “ganhos” obtidos na atual legislatura não serão admoestados. O candidato que, em tese, mantiver uma oposição fingida e uma certa distância protocolar do atual governo, deverá congregar todas as facções que dão base ampla no Congresso Nacional, ao atual governo e acenar para os setores mais conservadores que a manutenção de tais privilégios será preservada.  

Em oposição aos que definem os candidatos “anti-capital” como populistas, alcunha que fere a formulação convencional encontrada na teoria política, encaramos tal grupo como “elitistas”, ou seja, uma espécie de inverso dos “populismos” clássico. 

Podemos definir o segundo grupo como aquele que agrega personagens em busca de unção,  ausentes do debate mais profundo sobre o futuro do Brasil, procuram,  no voto ,  a remissão de seus pecados, baseado no discurso de volta aos bons tempos e retorno do salvador , em uma espécie de sebastianismo revisitado, que a princípio tem uma elevada chance de se configurar como uma alternativa viável à temerária gestão em curso . Mesmo que fragmentada, a vertente que congrega a chamada esquerda progressista, pode vir a ter condições de desfrutar um eventual segundo turno.  

Baseado no princípio da volta aos tempos de felicidade da primeira década do século, tal grupo, pela memória seletiva de parcela da população, pode ser altamente beneficiado com a transmutação de votos vinda dos abandonados da proteção social e das vítimas do descaso da política segregacionista em vigor. 

A candidatura do personagem radical de direita encontra-se em liquidificação, e deve ser encarada como um flerte de segmentos da população com uma estética autoritária de cunho fascista.       

No mercado da política, a dinâmica dos atos e o domínio do pragmatismo em geral é uma pratica dominante, daí que não achamos conveniente nesse momento o juízo do mérito de propostas programáticas rígidas. 

O certo é que a realidade da situação orçamentária-fiscal e o caos em que se encontra o mercado de trabalho, por conta do processo de estagnação econômica, asseguram que tudo que vem sendo apresentado como proposta de ação e plano de governo, por parte de candidatos, deve ser visto como um processo em formação de um conjunto de formulações de políticas de governo, ainda  em construção. 

A despeito do tempo curto do processo eleitoral, não há, ainda,  uma clara definição que aponte para a construção de um bloco hegemônico dentro do equilíbrio político-partidário, que possa assegurar a vitória de uma vertente ou campo político sobre outra, o que remota à clássica indagação: A economia se subordina à política ou a ela é sobreposta? 

Vamos esperar o desenrolar dos próximos atos.



Tags: candidatos, economia, eleições, mercado, política

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