Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Renê Garcia Jr.


Alienação, Cegueira e Infantilidade

Jornal do Brasil

A alienação, em uma linguagem não marxista, pode ser entendida como uma fuga, um escape, uma forma de se distanciar de uma realidade adversa e complexa. Em algumas situações, as deformações provocadas pelo distanciamento dos problemas e da necessidade de tomar a frente do protagonismos da história faz com que esse processo acabe por tomar características de castração, no sentido freudiano do termo. 

Ao longo de nossa história recente, são inúmeros os casos revelados em momentos decisivos, em que fatos e atos são detonados sem que o “povo”, entendido como a maioria da população, que normalmente  vive distanciada das formas convencionais do exercício do poder, detenha informações ou conhecimento do que realmente está acontecendo no mundo da política real. 

As grandes rupturas, quando ocorrem, não seguem um padrão pré estabelecido ou são frutos de fenômenos encadeados, de uma corrente de ações e reações claras. Ao contrário, a presença da descontinuidade e de saltos não lineares é o mais frequente. 

As grandes mudanças políticas e econômicas em países ocorrem por combustão própria, e são detonadas de forma espontânea, normalmente por um ato isolado, às vezes desconectados de uma aparente compreensão, onde com frequência ensaios são apresentados como um fenômeno social amplo e impactante. Quando não verdade, não passam de um mero raio em um dia de sol. Como exemplo recente no Brasil, temos as manifestações de 2013, que, apesar de se anunciar como um movimento de confronto com a realidade em exposição, denotando inconformismo com a política e as formas de representação. 

Quando analisadas com a lupa da história, percebe-se que o núcleo das manifestações foi marcado e pautado pela ausência de conteúdo reformista e um gatilho para a formação de um movimento  de caráter conservador com características autoritárias, fenômeno que alcançou o auge  com  as passeatas e mobilizações pré-impeachment, com  enorme capacidade de mobilização e elevada eficiência na arte de propagar notícias e narrativas impregnadas de ódio e culto a segregação envelopadas de um moralismo capenga.  

Esse movimento foi o ponto de partida para a construção do que hoje observamos no discurso do candidato de extrema direita.

O fenômeno brasileiro tem características próprias e algumas semelhanças com movimentos de pendor “nacionalista-autoritário” presenciado em outros países. Uma explicação possível pode ser encontrada em análises que tentam descrever o processo de perda de identidade dos partidos de tendência social-democrata com matiz de centro esquerda, tendo como origem a crise desencadeada a partir de 2008 e seus desdobramentos sobre a economia.  

Até então, os partidos políticos vitoriosos tinham como vantagem no discurso o domínio de pautas com conteúdo social e a defesa de direitos civis voltada para as afirmações do que se denomina como o “politicamente correto”. Essa diversidade de alvos acabou sendo direcionada pela inserção em seus programas de agendas com conteúdo plural e múltiplos discursos em que, legítimas demandas de várias tribos e segmentos secularmente segregados, passaram a ter dominância sobre a narrativa do embate ideológico convencional (luta de classes) 

Uma pausa no embate político tradicional 

A identidade política criada em anos de luta e voltada para o combate às desigualdades e aperfeiçoamento democrático foi esvaziada bruscamente pela presença de forte insegurança econômica, ameaças e incertezas por conta das inovações disruptivas e uma espécie de saturação dos discursos apontando os elogios às belezas e maravilhas da globalização. 

Como resultado, nos Estados Unidos da América, ganhou voz um imenso contingente dos órfãos da mundialização do capital sem fronteiras, e, no caso brasileiro, a classe média e seus agregados tornaram-se desalentados pela perda de renda, instabilidade e incerteza quanto ao futuro, encontrando nos movimentos de cunho conservador um berço esplendido para o aconchego de suas lamurias. O resultado é a desconstrução por parte de um segmento do eleitorado das alternativas político-partidárias que abraçam programas identitários voltados para a congregação de tribos e diversos grupos alternativos, que aglutinam demandas que vão dos identificados com a causa relacionada com discriminação de gênero, raça, a defensores da proteção ambiental e  atores culturais   

O que ocorre hoje no Brasil é uma interessante disputa entre agentes políticos pelo domínio de uma certa identidade que resulte em monopólio da narrativa; uma tentativa desoladora de conquistar pelo grito a atenção o protagonismo do tempo. No entanto, tal conjunto de ações fica prejudicado para a chamada esquerda, por conta da unicidade temática de seu discurso. 

A ênfase absoluta dada à tese contida no lema que eleição sem Lula é golpe é um aposta altamente arriscada, ao isolar as demandas da sociedade e  não dar respostas às questões do momento e, com isso, a sensação de  ausência de propostas efetivas para consertar o ambiente econômico em degeneração, ao mesmo tempo que subordina as angústias de um segmento expressivo da população à sobrevivência de uma candidatura inserida em uma tese que tem como mote a  revelação do caminho para a “felicidade de tempos de outrora”.   

Nesse momento, o conceito de alienação pode tomar a vertente de ingenuidade ou de um certo infantilismo, para usar uma linguagem leninista, por parte de um segmento da esquerda, que presa e é refém de uma frase. Transforma sua práxis em uma batalha em que suas armas e exércitos estão condicionados a uma única variante, em uma espécie de jogo em que somente a sorte de retirar a carta do Coringa assegura a vitória.  

Caro leitor, na próxima semana esta coluna pretende trazer uma análise sobre os impactos da política comercial da administração Trump sobre a economia chinesa, e os possíveis desdobramentos e o impacto sobre as economias dos países emergentes.



Tags: crise, economia, história, jb, monopólio

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