Jornal do Brasil

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017

Esportes - Olimpíada 2016

Retrospectiva 2016 - Esporte: A euforia e as polêmicas olímpicas

Jogos do Rio comoveram o mundo, criaram novos ídolos e emocionaram com conquistas inéditas

Jornal do BrasilStefano Miranda

O mundo dos esportes foi agitado como nunca no Brasil, e especialmente no Rio, em 2016. Durante o primeiro semestre, com as Olimpíadas se aproximando, os olhos do mundo estiveram voltados para a Cidade Maravilhosa, que iria sediar o maior evento esportivo do mundo pela primeira vez.

“Fora de campo”, um escândalo de doping envolvendo a delegação russa, uma das grandes favoritas, chocou o mundo e causou a mudança de resultados de edições anteriores dos Jogos. O caso dos nadadores americanos que se envolveram em problemas com a polícia brasileira rendeu assunto e praticamente decretou o “fim da carreira” de um dos mais promissores atletas da equipe dos EUA, Ryan Lochte.

“Dentro de campo”, o Brasil melhorou seu desempenho no quadro de medalhas, quebrou recordes, e, mesmo não atingindo a meta estabelecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro de ficar entre os cinco primeiros, viu o surgimento de novos ídolos brasileiros e estrangeiros.

No futebol, sob o comando de Neymar, a seleção olímpica quebrou o incomodo tabu de não ter um ouro olímpico e conquistou a tão sonhada medalha da melhor maneira possível: jogando no Maracanã para mais de 70 mil pessoas e vencendo a Alemanha na final (algoz da Copa do Mundo 2014). 

Relembre como foi o ano de 2016 no mundo dos esportes

Toques finais para as Olimpíadas Rio 2016

O ano começou a todo vapor para a cidade do Rio de Janeiro. O município, que foi sede dos Jogos Olímpicos, correu contra o tempo para entregar as obras prontas a tempo para a realização da competição. Há menos de um mês para o início dos Jogos, algumas obras ainda estavam inacabadas e preocupavam os organizadores e os atletas que vinham participar do evento.

Entre as obras que mais “tiraram o sono” dos organizadores foi a abertura da Linha 4 do metrô, que faz a ligação entre os bairros de Ipanema, na Zona Sul, até a Barra da Tijuca, na Zona Oeste. Orçada em R$ 9,77 bilhões, o metrô ficou pronto a tempo, e funcionou durante os dias de jogos apenas para quem possuísse entradas para as Olimpíadas. O transporte só foi liberado para a população após o término dos Jogos.

Em questão de estruturas esportivas, as principais preocupações ficaram com as obras das Arenas no complexo do Parque Olímpico. Com uma área total de 1,18 milhão de metros quadrados, a conclusão das obras era prevista para o primeiro trimestre de 2016. O custo inicial do projeto foi estimado em R$ 1,5 bilhão, mas, o montante total ultrapassou os R$ 2,2 bilhões. As obras que mais preocuparam foram: o Velódromo Olímpico, as Arenas Cariocas, o Centro Olímpico de Tênis, o Estádio Aquático Olímpico, e a Vila dos Atletas.

Oficialmente, o custo dos Jogos foi de R$ 39,07 bilhões, sendo que 57% foram de origem privada e 43% oriundos de recursos públicos. Do total, R$ 7,07 bilhões foram gastos em construções de arenas esportivas; R$ 24,6 bilhões destinaram-se a obras de legado para a cidade; e R$ 7,4 bilhões saíram do Comitê Rio-2016, coletado através de patrocínios.  

Escândalo de doping na Rússia choca o mundo às vésperas dos Jogos Olímpicos

Um relatório batizado de “relatório McLaren”, realizado por uma comissão independente sob encomenda da Agência Mundial Antidoping (Wada) denunciou que mais de mil atletas teriam sido beneficiados por um esquema de doping institucionalizado na Rússia, durante os últimos quatro anos. De acordo com o documento, 1.115 atletas teriam participado do "programa de doping do Estado", em 30 modalidades, "tanto de esportes de inverno quanto de verão, com atletas olímpicos e paralímpicos", entre eles a saltadora Yelena Isinbayeva.

O relatório foi escrito por Dick Pound, ex-presidente da Wada e chefe da comissão independente. Devido o escândalo, muitas nações pediram o banimento da Rússia dos Jogos Olímpicos, porém o COI decidiu que a delegação do país poderia participar das competições, mas teriam que se submeter a exames antidopings adicionais.

Apesar de não estar com seus nomes mais conhecidos no mundo esportivo, o país terminou a competição na quarta posição no quadro de medalhas, conquistando 19 ouros, 18 pratas e 19 bronzes, em um total de 56 medalhas.

Melhores momentos dos Jogos Olímpicos

Quem assistiu à grandiosa cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 - que emocionou o mundo - já podia imaginar o sucesso do evento que estava prestes a começar. As disputas foram marcadas por emoção, superação e um verdadeiro show de espírito esportivo. Nas arquibancadas, a torcida brasileira, como sempre, comandou a festa.

Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos foi elogiada em todos os cantos do mundo
Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos foi elogiada em todos os cantos do mundo

Primeiro dia de competição rendeu uma medalha de prata para o Brasil. O atirador Felipe Wu, conquistou o segundo lugar no tiro esportivo e abriu a contagem para a delegação brasileira no quadro de medalhas.

O primeiro ouro brasileiro não poderia ter um representante melhor, aliás, uma mulher que representa a realidade do povo brasileiro: Rafaela Silva. Mulher, negra, moradora de comunidade e Silva. Como uma redenção à derrota em Londres 2012, quando foi alvo de injúrias, a judoca deu a volta por cima e garantiu a medalha dourada.

Ainda no Judô, além do ouro de Rafaela, os brasileiros ganharam mais duas medalhas de bronze com Mayra Aguiar e Rafael Silva. Os resultados obtidos no Judô foram um pouco aquém das expectativas do povo brasileiro, sempre um dos fortes favoritos ao pódio na modalidade.

O talento brasileiro para as artes marciais foi visto também no Boxe, com Robson Conceição que conquistou o inédito ouro. Talvez a medalha menos esperada de todas conquistadas pelos brasileiros foi o bronze de Maicon Andrade, atleta do taekwondo.

Outra história de redenção aconteceu com o ginasta Diego Hypólito. Nome forte da ginástica artística, Diego conseguiu se reerguer após a decepção em Londres, e ao lado de Arthur Nory, subiram ao pódio para garantir a prata e o bronze, respectivamente. Foi a primeira vez que dois ginastas brasileiros sobem ao pódio ao mesmo tempo. A ginástica artística confirmou também o nome de Arthur Zanetti como um dos melhores do mundo nas argolas. O Brasileiro ficou com a prata e se tornou o primeiro ginasta a conquistar duas medalhas olímpicas.

As outras medalhas brasileiras foram conquistadas por Isaquias Queiroz, na canoagem de velocidade. Isaquias foi o primeiro atleta brasileiro a conquistar três medalhas em uma única edição dos Jogos Olímpicos. Thiago Braz, que venceu o ouro no salto com vara, e de quebra, bateu o recorde olímpico na modalidade. O vôlei de praia também garantiu medalhas para o Brasil. Alison e Bruno ganharam o ouro após vencer a dupla italiana Nicolai e Lupo na final; e Ágatha e Bárbara ficaram com a prata na participação da dupla em Olimpíadas.

Na maratona aquática, Poliana Okimoto chegou na quarta posição, mas ficou com o bronze devido a desqualificação de uma atleta francesa que foi punida por atrapalhar a rival italiana na linha de chegada. A vela confirmou o nome da família Grael no esporte. Martine Grael, ao lado de Kahena Kunze, fez jus ao sobrenome e conquistou o ouro na classe 49er FX.

As medalhas que talvez tenham sido mais comemoradas pelos brasileiros foram os ouros nos esportes coletivos em que o Brasil domina o cenário mundial. O vôlei de quadra voltou a subir no andar mais alto do pódio, o que não fazia desde Atenas 2004. Além de ganhar o ouro, a equipe de Bernardinho venceu de maneira incontestável as principais rivais Rússia e Itália nas semi e na final. Assim como no vôlei, a Seleção Brasileira de futebol quebrou o tabu e conquistou a único título que faltava em sua sala de troféus. Comandados por Neymar e companhia, a equipe começou a competição com um desempenho preocupante, porém após muitas críticas soube se recuperar e vencer a algoz na última Copa do Mundo, Alemanha na final. A decisão nos pênaltis coroou o craque Neymar (autor do gol durante os 90 minutos, e responsável por converter a última penalidade) e o goleiro Weverton, que justificou sua convocação fazendo uma campanha sólida e ainda pegando pênalti alemão na grande final.

O surgimento de novos ídolos

A Olimpíada realizada em casa proporcionou ao público brasileiro o surgimento de novos ídolos, em esportes sem tanta tradição no país. O baiano Isaquias Queiroz, de 22 anos, se tornou o primeiro brasileiro a conquistar três medalhas em uma mesma edição de Jogos Olímpicos. O canoísta conquistou duas medalhas de prata, nas classes 1.000m individual e 1.000m de duplas. Além de um bronze na classe 200m individual.

Thiago Braz surpreendeu o mundo ao bater o recorde olímpico no salto com vara
Thiago Braz surpreendeu o mundo ao bater o recorde olímpico no salto com vara

Já no salto com vara, o paulista Thiago Braz não apenas conquistou a medalha de ouro como também bateu o recorde olímpico ao vencer o francês Renaud Lavillenie (campeão olímpico em Londres 2012 e detentor do recorde mundial), após um salto de 6,03 metros. A derrota não foi muito bem aceita pelo francês, que chegou a desabafar e atacar a torcida brasileira que vaiou o atleta europeu.

A despedida de antigos ídolos

O atleta jamaicano Usain Bolt é o único tricampeão dos 100m, 200m e do revezamento 4 por 100m na história dos jogos olímpicos. Com a conquista das três medalhas de ouro nos Jogos do Rio 2016, o jamaicano igualou-se ao norte-americano Carl Lewis e ao finlandês Paavo Nurmi como recordista em número de vitórias no atletismo olímpico. Mesmo com o feito histórico, ele não conseguiu bater a própria marca nos 200 metros rasos: o recorde mundial de 19s e 19 centésimos, que foi conquistado no mundial de Berlim, em 2009. Bolt disse que esta foi sua última olimpíada e que está se aposentando das pistas.

Outro ícone do esporte que se despediu de competições olímpicas foi o maior nadador de todos os tempos, o americano Michael Phelps. Na Rio 2016, o público pode ver de perto a performance de superatletas. O astro das piscinas fechou com chave de ouro a participação em sua última Olimpíada: levou cinco ouros e uma prata nesta edição, totalizando 28 medalhas na carreira. Dos seus 31 anos de idade, 24 foram dedicados ao esporte.

A redenção do futebol brasileiro

Exatamente dois anos antes da final do futebol olímpico, a Seleção Brasileira foi alvo do maior vexame da sua vitoriosa história. Uma derrota por 7 a 1 para a Alemanha na semi-final da Copa do Mundo de 2014, com mais de 60 mil torcedores do estádio do Mineirão ainda assombrava, e talvez irá assombrar para sempre quem viveu aquele dia. Porém, o destino quis que o “troco” brasileiro para os alemães viesse através da um título, dessa vez no Maracanã, que colocou a conquista olímpica na sala de troféus da seleção mais vitoriosa do futebol mundial. O único título que faltava.

A campanha não começou bem, e, até então contradizia a tão elogiada convocação do técnico Rogério Micale. Nos dois primeiros jogos, o Brasil empatou com África do Sul e Iraque, ambos por 0 a 0. A confiança da torcida voltou a ser conquistada após uma goleada por 4 a 0 sobre a Dinamarca. A vitória garantiu o Brasil na primeira posição no grupo A, com cinco pontos conquistados. Nas quartas de final, a Seleção Brasileira enfrentou a Colômbia, aumentando ainda mais a rivalidade que se formou nos últimos anos entre as duas equipes. O Brasil venceu os colombianos por 2 a 0, com gols de Neymar e Luan, este último acabara de se firmar no time titular.

Na semifinal, o Brasil teve o jogo mais fácil da caminhada rumo ao título. Uma goleada por 6 a 0 contra a Honduras. Mais uma vez Neymar foi o destaque da partida, ao lado de Gabriel Jesus, autor de outros dois gols. O zagueiro Marquinhos e o atacante Luan encerraram o marcador.

A grande final foi contra a temida Alemanha, que havia eliminado a Nigéria na semi. Dois anos depois o tão aguardado reencontro entre as duas equipes finalmente acontecia. Aos 25 minutos do primeiro tempo, Neymar, sempre ele, sofreu falta na entrada da área após boa jogada individual, e, como manda o manual, colocou a bola no ângulo direito e abriu o placar. Mesmo com o gol, a seleção da Alemanha não desistiu e continuou pressionando sendo parada pelas ótimas defesas de Wéverton.

Aos 13 minutos do segundo tempo, após boa troca de passes do ataque alemão, Meyer acertou o canto esquerdo de Weverton e empatou a partida. O jogo foi para a prorrogação, mas o cansaço tomou conta dos dois times e a disputa acabou indo para os pênaltis.

Seleção Brasileira acaba com tabu e conquista o único título que faltava em seu currículo 
Seleção Brasileira acaba com tabu e conquista o único título que faltava em seu currículo 

Os cobradores vinham fazendo suas partes, até que o último jogador alemão selecionado para cobrar um dos pênaltis parou em ótima defesa de Wevérton. Para o título ser confirmado a bola não poderia estar em melhores pés: Neymar. O craque brasileiro respirou fundo e cobrou forte no canto esquerdo do goleiro, sem chances de defesa. Aos gritos de “o campeão voltou” a Seleção Brasileira finalmente se livrou do peso de nunca ter sido campeã olímpica e voltou a recuperar a reputação que havia sido abalada após a tragédia dos 7 a 1.

Nadadores americanos arrumam confusão e viram caso de polícia

Após o nadador americano Ryan Lochte afirmar ter sido alvo de um assalto em um posto de gasolina, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, as investigações da Polícia mostraram que, na verdade, eles brigaram com seguranças do estabelecimento. Na noite do dia 17 de agosto, já nos Estados Unidos, Lochte reforçou que houve assalto, porém mudou a versão da história.

Dias depois, Lochte admitiu em entrevista ter sido o responsável pela confusão onde teria sofrido um suposto assalto em um posto de gasolina, e pediu desculpas ao Brasil. Na entrevista, o nadador admitiu que foi imaturo e impreciso no depoimento às autoridades brasileiras e afirmou que o país não merecia isso, pois fez uma Olimpíada maravilhosa.

Paralimpíadas, os Jogos Olímpicos da superação de limites

Os jogos Paralímpicos começaram com menos pompa do que os Jogos Olímpicos. Pouco antes do início das competições, muitos dos ingressos não haviam sido comercializados, porém, com o sucesso das Olimpíadas, o povo se animou, e em menos de quinze dias, esgotou todas as entradas e bateu recorde de público, inclusive dos Jogos Olímpicos. Ao todo, foram 167 mil ingressos vendidos para um só dia.

Durante a competição foram disputadas 23 modalidades e 528 provas realizadas nas arenas e nos estádios, sempre lotados. O Brasil ficou em oitavo lugar no quadro de medalhas com 14 medalhas de ouro, 29 de prata e 29 de bronze, num total de 72 medalhas.

O nadador Daniel Dias voltou a chocar o mundo e se tornou o maior nadador paralímpico da história, ganhando o apelido de “Michael Phelps brasileiro”, em alusão ao maior nadador da história.

As medalhas paralímpicas eram compostas por “guizos” que faziam barulho para que atletas com deficiência visual pudessem diferenciá-las.

Outro destaque brasileiro nos Jogos Paralímpicos foi a seleção de futebol de cinco, que levou o ouro pela quarta vez consecutiva, liderada por Marcelinho, o camisa 10 da Seleção Brasileira e melhor jogador do mundo na modalidade.

Colocando ainda mais uma dose de emoção em um evento carregado de sentimentos, o italiano Alessandro Zanardi, ex-piloto de F1 conquistou uma medalha de ouro no ciclismo adaptado da classe H5 na mesma cidade em que conquistou sua primeira poleposition antes quando ainda competia no automobilismo. Antes do grave acidente que culminou com a perda de suas duas pernas.

Sempre mostrando superação de limites, um atleta iraniano do tênis de mesa chocou o mundo ao competir com outros atletas segurando a raquete com a boca. O mesatenista Ibrahim Hamadtou perdeu os dois braços em um acidente de trem aos 10 anos.

Tags: 2016, bolt, Doping, esporte, jogos, medalha, natação, olimpíadas, paralimpíadas, retrospectiva, Rio

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