Jornal do Brasil

Quarta-feira, 26 de Abril de 2017

País - Opinião

Crise, descrença nas autoridades e falta de perspectiva: a receita do caos nos presídios

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A chacina no presídio de Manaus, onde uma briga entre facções rivais deixou 56 mortos, ganhou repercussão no mundo, com manifestações da ONU, Anistia Internacional e até do Papa Francisco.

Debates, alertas e análises lançam o holofote para presídios superlotados e condenam o sistema penitenciário. Mas para entender mais profundamente fenômenos como este numa sociedade, é preciso enxergar e interpretar o que acontece antes de as prisões chegarem ao ponto de se tornar uma bomba-relógio.

Por que as celas estão superlotadas? Por que a relação entre o Estado e quem comete crimes está tão deteriorada? Por que o presidiário não tem qualquer perspectiva de recuperação após sair da cadeia? A falta de uma política de reinserção social é a peça que fecha a engrenagem desta verdadeira fábrica de tragédias.

Num país afundado na crise econômica, o número de desempregados se multiplica de forma assustadora. São milhares sem salário, sem ter como alimentar a família ou comprar um remédio. Não é difícil imaginar que o desespero leve muitos para a criminalidade, o que tem se intensificado nos últimos anos.

Rebelião em presídio deixou 56 mortos
Rebelião em presídio deixou 56 mortos

Por outro lado o povo vê, diariamente, notícias de empresários e banqueiros atuando sem cerimônia na criminalidade. Bem nascidos, educados nas melhores escolas, eles tinham todas as oportunidades para levar uma vida confortável e honesta. Mesmo assim, delinquiram motivados pela ganância. E pior, muitos são soltos meses depois, com seus cofres ainda cheios de produtos do roubo.

Como o povo pobre e desempregado se sente vendo a impunidade dos ricos delinquentes? Qual o respeito que o Estado espera de uma população que não se sente respeitada? Que vê seu próprio ex-governador preso, acusado de receber mesada maior até do que a que os traficantes exigiam das empreiteiras para permitir obras em áreas perigosas?

Soma-se à superlotação e ao exemplo de delinquência que vem das autoridades a total falta de perspectiva que um preso tem de se reinserir na sociedade após cumprir sua pena. Qual empresa emprega um ex-presidiário? Qual associação comercial abre vagas para quem sai da prisão? Há algum programa oficial de cotas, como há para deficientes, negros e índios?

Um preso, numa cela superlotada, que não crê mais nas instituições, que não tem qualquer respeito pelo Estado, e que não tem qualquer esperança de se reintegrar na sociedade, só pode se transformar num verdadeiro homem-bomba. Centenas de homens, numa verdadeira bomba atômica.

Tags: brasil, Chacina, criminalidade, morte, presídio

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