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A liberdade dos corpos

Jornal do Brasil MARIO NOVELLO*

Certos conceitos usados nas ciências humanas, quando possuem similar nas ciências da natureza, adquirem nestas um caráter absoluto que não é possível encontrar nas primeiras. Em alguns casos isso é uma falácia. Por exemplo, aceita-se que na sociedade dos homens a liberdade é relativa, mas ao ser aplicado na Física, o conceito adquire um caráter absoluto.
Ao tratar da liberdade no interior das ciências humanas, reconhecemos sua condição relativa. Para isso, basta comparar como a liberdade é tratada na Justiça ou na Filosofia. Lemos em Sartre que um prisioneiro pode ser mais livre do que um rico burguês subjugado a seu desejo de sucesso. Em uma ciência dura, como a Física, se aceita, sem necessidade de reflexão maior, a ideia de que a liberdade de uma coisa, de um corpo, seja um conceito absoluto. Essa certeza decorre da identificação do termo liberdade à observação repetida para saber se um corpo está ou não submetido a uma força externa. Com efeito, na Física, afirma-se que um corpo é livre se sobre ele não existem forças externas atuando. Um corpo atuado por qualquer força não é livre. Tal descrição permitiria caracterizar de um modo absoluto o que chamaríamos “liberdade na Física”.
No entanto, uma reflexão menos superficial, apoiada em recentes pesquisas científicas, permite constatar que essa diferenciação não é totalmente correta. Ou melhor, essa distinção não deve ser entendida desse modo simplista, atribuindo às afirmações nas ciências humanas uma relativização cuja função enfraquece suas certezas e, por oposição, concede um status superior aos enunciados das ciências físicas, distinguindo um caráter de veracidade absoluta.
Por exemplo, afirmar que uma partícula, um planeta, uma estrela, um objeto qualquer é livre depende do modo pelo qual ele é representado. Ou seja, na Física, o conceito de liberdade é também relativo, de modo semelhante à sua interpretação nas ciências humanas. Uma tal afirmação requer um comentário técnico para justificá-la e para isso vamos recorrer a teorias contemporâneas da Física.
Existem três leis fundamentais que descrevem completamente todos os movimentos dos corpos envolvendo as chamadas teorias da relatividade, que se distinguem pelos qualificativos especial, geral e métrica. A evolução das características do espaço-tempo, desde o começo do século 20 até os dias de hoje, pode ser descrita por três momentos principais de síntese, a saber:
1 - a Relatividade Especial, no começo do século 20, se fundamentou sobre o princípio de que cada observador possui um tempo próprio e se movimenta em um espaço-tempo comum único, possuindo uma geometria estática, absoluta e sem curvatura; 2 - a Relatividade Geral, na segunda década daquele século, alterou essa geometria mantendo a universalidade, mas tornando- a variável, identificando-a com a interação gravitacional; 3 - a Relatividade Métrica, no século 21, se baseia no princípio de que cada observador, sobre o qual atuam forças de qualquer natureza, institui sua própria geometria, na qual as forças que atuam sobre ele são formalmente eliminadas. Como a geometria resultante (aquela onde o corpo está livre de qualquer ação e se movimenta ao longo de um caminho livre nessa geometria associada) depende do seu movimento, concluímos que cada corpo estabelece uma geometria particular, na qual ele é um corpo livre, isento de qualquer interferência externa.
Dito de outro modo: um corpo submetido a uma força em um dado espaço-tempo, pode ser descrito, de modo equivalente, como se estivesse livre de qualquer força, desde que ele seja representado como se estivesse imerso em uma geometria específica, dependente das propriedades de movimento do próprio corpo. Isso significa que cada corpo possui “sua” geometria, na qual o efeito da força externa que sobre ele atua é substituído pelas propriedades da geometria onde o corpo passa a ser descrito. Ou seja, a noção de corpo livre depende igualmente da estrutura métrica do espaço onde esse corpo é descrito.
Mesmo não tendo um caráter universal, devemos reconhecer que esse procedimento produz um resultado notável: os efeitos da aceleração de um corpo atuado por força de qualquer natureza, passam a ser substituídos por um caminho livre em um espaço-tempo de geometria modificada. O corpo, desprovido de aceleração nessa geometria efetiva, é então considerado como um corpo livre. Essa eliminação da força pela caracterização de uma geometria específica para cada corpo é uma simples questão de escolha do modo de descrição.
Adquire-se, então, uma novidade inesperada: a liberdade dos corpos na Física depende da representação escolhida. Ou seja, assim como nas ciências humanas, onde a liberdade é relativa, também na Física, contrariamente ao senso comum, a liberdade das coisas não tem caráter absoluto.

* Professor Emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas



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