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País - Artigo

Perón e a transferência de votos

Jornal do Brasil FLÁVIO GAITÁN* E FABIANO SANTOS**

A possibilidade de se ter nas eleições de outubro massiva transferência de votos de eleitores do Lula, impedido pela Justica de concorrer, para a candidatura por ele indicada em sua substituição, pode ser examinada à luz da experiência argentina do século 20.

Nas eleições de 1958 houve transferência de Perón, impedido de participar nas eleições, para Arturo Frondizi, representante dos setores mais receptivos à possibilidade de acabar com a proscrição até então vigente ao peronismo. Os peronistas votaram em Frondizi com a esperança de que, uma vez no poder, legalizaria os sindicatos e acabaria com o veto à participação dos peronistas no jogo eleitoral. O triunfo de Frondizi surpreendeu os setores antiperonistas e mostrou que, apesar dos intentos do governo autoritário precedente, o peronismo continuava vivo.

A proscrição do peronismo perdurou até 1973, apesar das medidas de relaxamento da proibição adotadas por Frondizi (presidente entre 1958 e 1962) e Arturo Illía (entre 1963 e 1966), que permitiram a participação em eleições médio termo de frentes populares afins a Perón. Contudo, o Partido Justicialista continuava impedido de participar do jogo eleitoral, e Juan Perón, proibido de entrar no país.

Depois de novo período turbulento, eleições foram convocadas para março de 1973. Um Estatuto Fundamental, temporário, foi aprovado em 1972, estabelecendo o voto direto, período de governo de quatro anos com possibilidade de reeleição e segundo turno caso nenhum candidato obtivesse 50 por cento mais um dos votos. Em teoria, o processo eleitoral representava o fim de um longo ciclo de proscrição peronista. No entanto, uma manobra do governo impediu Perón de se apresentar para as eleições por não ter residência legal no país.

Agora sim, o fenômeno da transferência de votos ocorre em sua plenitude. De fato, em torno da imagem de Perón se configura uma ampla coalisão eleitoral, denominada de Frente Justicialista de Libertação (Frejuli), levando Hector Cámpora e Vicente Solano Lima como candidatos “nominais”.

Na campanha, utilizando-se do lema “Cámpora no governo, Perón no poder”, o peronismo buscou deixar bem claro que a candidatura de Cámpora era, na verdade, um estratagema para que Perón retornasse ao governo. Mesmo em um contexto de grande hostilidade de vastos setores conservadores, do Poder Judiciário, parte do Exército e do ex-ditador Lanusse, o Frejuli ganhou em todo o país, com pouco menos de 50% dos votos, resultado que levou o segundo colocado, Ricardo Balbin, a abrir mão de participar no segundo turno. Em 25 de maio de 1973, Cámpora tomou posse, mas convoca novas eleições. Em setembro de 1973, 62% dos argentinos puderam, finalmente, votar em quem achavam a melhor opção para conduzir o país. Perón foi eleito presidente pela terceira vez.

O que a experiência argentina nos ensina? Condições muito específicas permitiram que o fenômeno ocorresse. Mesmo assim, os desdobramentos não foram nem um pouco alvissareiros. Ao se pensar no caso argentino e sua transplantação para a experiência brasileira contemporânea, com o provável deslocamento de votos de Lula para o candidato do PT, Fernando Haddad, não é possível esperar que um triunfo da estratégia cancele os elementos mais permanentes de resistência a um governo de perfil mais popular. Em uma palavra, não modificará o quadro de casuísmo judicial, ameaças autoritárias de setores militares, nem convencerá a grande mídia de seu óbvio viés.

* Unila

** Iesp/Uerj



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