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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Rio

Mais mortes e menos recursos: Anuário de Segurança Pública revela queda no investimento em segurança

Jornal do Brasil MARIA LUISA DE MELO, malu@jb.com.br

O Rio de Janeiro teve aumento de mortes violentas intencionais (MVI) no ano passado em comparação com 2016 e, neste mesmo período, reduziu os gastos com segurança pública,  investindo só R$ 2.400 reais em “Informação e Inteligência” – referentes  a aquisições de sistemas de informatização e construção de bases de dados, para o planejamento e monitoramento das políticas de segurança. É o que aponta o 12ª Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado, ontem, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). 

Segundo dados do levantamento, o número de mortes no estado cresceu 7,2%, passando de 6.262 para 6.749 óbitos. Enquanto em 2016 o estado tinha uma taxa de 37,6 homicídios por 100 mil habitantes, em 2017, tal taxa cresceu para 40,4. Entre os crimes que tiveram incremento estão os homicídios dolosos, mortes de policiais civis e militares (em serviço e de folga) e mortes decorrentes de intervenções policiais. Os crimes de latrocínio e lesão corporal seguida de morte tiveram leve queda. Em comparação com as outras unidades da federação, o estado fluminense é o sétimo no ranking daqueles que viram o número de mortes violentas subir no último ano. 

Gastos com segurança pública, que incluem treinamento dos agentes, diminuíram em 2017. Investimento em tecnologia foi de apenas cerca de 10% do último valor informado pelo governo estadual.

Paralelamente ao incremento de violência, o estado viu o montante destinado à segurança pública diminuir. Em 2016, foram empregados R$ 9,47 bilhões, enquanto em 2017 foram destinados R$ 8,57 bilhões em “policiamento”, “defesa civil” e “informação e inteligência” – cerca de R$ 1 milhão a menos do que no ano anterior. 

Pífio, o investimento aportado em tecnologia, alocado na seara “informação e inteligência” foi o que mais chamou atenção. Em 2015, o investimento, segundo dados do Fórum, foi de R$ 23.532, o que deixou o Rio em penúltimo lugar, entre os 19 que destinaram alguma verba para a rubrica. Na ocasião, o estado ficou à frente apenas de Tocantins, que aportou míseros R$ 579,99. Em 2016, o governo estadual não informou o valor de tal investimento. Já em 2017, o valor despencou em comparação com 2015, sendo registrado em apenas R$ 2.400. 

Os registros têm uma explicação muito clara, segundo o sociólogo Arthur Trindade, do Fórum Brasileiro de Segurança. 

Tabela mostra estados com as maiores taxas de mortes violentas intencionais no ano passado

“A queda dos gastos em segurança é decorrente da crise fiscal que assolou o estado. Mas a qualidade dos gastos é tradicionalmente ruim. A maior parte serve apenas para pagar a folha de pagamento. Nos últimos dez anos, houve forte aumento no efetivo da polícia no Rio, insustentável do ponto de vista orçamentário. Não é possível conduzir a gestão de segurança simplesmente com a contratação de novos efetivos”, aponta o pesquisador. Segundo conta, há investimentos básicos em tecnologia que o estado poderia fazer, mas não faz: “Alguns estados brasileiros contam com ferramentas básicas como um sistema de detecção de tiros, fundamentais para a polícia saber as áreas onde mais há tiroteios. No Rio não temos isso, dependemos do trabalho heróico de organizações como Fogo Cruzado e Onde Tem Tiroteio. Não há um controle do governo sobre isso”. 

Coronel da reserva, o sociólogo Robson Rodrigues, do Laboratório de Análise da Violência (LAV/Uerj), destaca que o investimento em inteligência representa economia a longo prazo. “Sistemas informatizados atualizados, identificando as principais manchas, representam economia de recursos no policiamento ostensivo”, diz. A Secretaria de Segurança Pública informou que o valor investido em “inteligência” fornecido pelo Fórum não procede. E que, entre 2010 a 2017, houve um aporte de cerca de R$ 15 milhões em “Inteligência”. Em nota, citaram a “apreensão recorde de 499 fuzis”, e a prisão do traficante Marcelo Piloto, no ano passado. Tais ações, porém, pertencem à rubrica “Policiamento”, e não à “Informação e Inteligência”, segundo metodologia usada pelo Fórum.



Tags: mortes, polícia, rio, segurança, violência

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