Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

País - Sociedade Aberta

Teologia com sabor latino

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Ser latino é nascer em algumas latitudes.  Ou ter ancestrais próximos que nasceram nessas latitudes, situadas ao sul do mundo antigo, nas praias do Mar Mediterrâneo. Os povos mediterrâneos construíram uma riqueza cultural complexa, identificada com o Lácio, mais especificamente a Roma antiga.

Ser latino significa ainda falar e expressar-se em determinadas línguas, denominadas latinas, quais sejam o italiano, o espanhol, o francês e o português. Nessas línguas os povos latinos escreveram, fizeram arte, construíram saber que hoje ainda é patrimônio precioso para toda a humanidade.

Alguns desses povos latinos saíram de seus lugares de origem e vieram para o sul da América, continente descoberto pelo genovês Cristóvão Colombo crendo achar o caminho para as Índias.  Encontraram o novo mundo chamado América e o colonizaram.

Posteriormente, ingleses e franceses dirigiram-se para o norte do continente americano e ali construíram o que hoje conhecemos como Estados Unidos e Canadá. Muitos territórios latinos foram apropriados pelo país que surgia e passaram a ser contados em sua federação.

Hoje chamamos latino-americanos os que vivem no sul do continente e norte americanos os que vivem ao norte.  Sucede que o mundo globalizado flexibilizou as fronteiras e há muitos anos o Sul migra para o Norte, sonhando e buscando encontrar aí uma vida melhor, com trabalho e prosperidade. A migração, no entanto, não significa a morte da cultura.  Por isso, hoje, nos Estados Unidos, existe uma grande presença da cultura latina, que resiste ao desaparecimento de sua identidade e leva a cabo ricas produções culturais e científicas que enriquecem não só o país onde vivem, mas toda a humanidade.

Uma dessas áreas é a teologia, reflexão sobre a fé, que elabora um discurso sobre as características dessa cultura e dessa religião inseridas em um país estrangeiro.  Partindo sobretudo das categorias do cotidiano, das celebrações, das festas e rituais, a teologia latina dos Estados Unidos converteu-se aos poucos em uma importante escola de teologia que é parceira obrigatória nos grandes debates e reflexões daquele país.

Até o momento, essa teologia dialogava entre si e com teólogos americanos, não somente descendentes de anglo-saxões, mas também de africanos e de asiáticos. Recentemente, porém, vem descobrindo um novo parceiro de diálogo: a teologia latino-americana.

Quando se olharam nos olhos, essas duas teologias constataram que eram irmãs de sangue.  Em suas veias corria um sangue feito dos povos originários indígenas e afro-ameríndios, primeiros habitantes dos países ao sul da América.  Em seu coração palpitava o desejo de que a fé,  raiz de sua vida, fosse igualmente sua forma de presença em uma cultura onde viviam como em exílio. Exílio físico para os latinos dos Estados Unidos; exílio social para os latino-americanos, cuja teologia brotava do encontro com o Senhor no rosto do pobre e do acompanhamento da fé do povo de Deus.

E um dia um Papa latino-americano, vindo do Sul, do fim do mundo, foi eleito para o trono de Pedro.  Sua liderança, seu carisma, sua capacidade de renovação e de diálogo fizeram ambas as teologias se verem por ele representadas e se sentirem ainda mais estimuladas ao diálogo e à mútua colaboração.

Hoje, o diálogo entre essas duas teologias tem diante de si um vasto e promissor horizonte.  Ambas sabem que podem enriquecer-se mutuamente e potencializar a força delas na comunidade teológica internacional.  Ambas esperam que sua reflexão e seu discurso sejam ouvidos em outras partes do mundo e possam fazer uma diferença importante no pensar e discorrer sobre a fé que é a teologia. Ambas sonham com o dia em que essa presença teológica latina tenha lugar reconhecido, de fato e de direito, nos grandes fóruns internacionais de pensamento, seja de teologia, seja de outras áreas do saber.  

Ambas manejam novas epistemologias vindas do sul.  O Sul real que é o da América Latina. E o Sul inserido no Norte, que é o da comunidade latina dos Estados Unidos. Desde este sul que quer dar-se a conhecer, a pensar e ajudar a crer essas teologias desejam dizer uma palavra não apenas para as igrejas, mas para a sociedade e a academia. Ambas fazem teologia com sabor latino e aí está sua riqueza e diferença.

* professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ.   A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 

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