Jornal do Brasil

Quarta-feira, 26 de Abril de 2017

País - Sociedade Aberta

Obesidade e os rins

Rubens Lodi

A obesidade é uma epidemia que já conhecemos, em 2014 tínhamos perto de 600 milhões de pessoas no mundo obesas, ela vem piorando, estudos ainda apontam para um aumento de 40% dos pacientes obesos na próxima década, apesar de todos os nossos esforços de conscientizar a população e das diversas modalidades de tratamento.

Todos já sabemos dos vínculos maléficos entre a obesidade e a hipertensão, entre a obesidade e o diabetes, entre a obesidade e as doenças que afetam nossa estrutura óssea, principalmente a dor lombar. Mas sabemos o vinculo da obesidade e a doença renal?

Não, Não sabemos.

Nos Estados Unidos, apenas 50% das pessoas com doença renal avançada sabiam que tinham problema renal, apenas 10% das pessoas nos estágios precoces sabiam da doença. Isso, mesmo tendo doenças que cursam com maior risco de perda da função renal e que normalmente tem melhor acompanhamento médico, como Diabetes e Hipertensão. Agora imagine uma doença em que tem muito pouco acompanhamento médico primário, que muitos creem ter apenas caráter cosmético ? Sim, nosso rim não cresce proporcionalmente ao nosso ganho de peso, ele apenas irá trabalhar mais para dar conta do recado.

Diretamente esse “trabalho forçado”, que chamamos tecnicamente de hiperfiltração já leva a uma perda maior de proteína, que por si só “alfineta e lesa” os rins de pouco a pouco. Indiretamente, a desregulação de hormônios como a Insulina, a desregulação da retenção de líquidos e sal, a desregulação de hormônios que controlam a pressão arterial, claramente levam a doenças como o Diabetes e Hipertensão, que por fim, também, lesam nossos rins.

Desta forma, direta ou indiretamente, a obesidade cobra um preço alto aos nossos rins. Inúmeros estudos desenvolvidos em países como Israel, Estados Unidos, Japão, Suécia, Noruega, demonstraram que quando a obesidade é moderada (IMC > 30 Kg/m2) ou pior a chance de se evoluir para a doença renal crônica em graus avançados ou até a diálise aumentam no mínimo 40%. Mesmo quem já tem Doença Renal por qualquer outro motivo, a obesidade Moderada aumenta a velocidade da perda da função renal.

A obesidade não afeta apenas o rim no que se refere a perda de sua função, mas outras doenças como “Pedra nos Rins” tem seu risco mais aumentado na população obesa. Um estudo inglês mostrou em 2014 que a cada 5 Kg/m2 de aumento do IMC, aumentava em 25% o risco de Câncer nos Rins, lembrava que 10% dos canceres renais estavam associados ao excesso de peso. Outros estudos mostravam que de 17 a 26% dos canceresde Rins estavam associados diretamente ao excesso de peso.

Por que levantar esse problema agora?

Tirando raras situações como Crise de “Pedra nos Rins”e alguns canceres, a doença renal não dói, dá muito pouco aviso prévio. Por isso a necessidade de pacientes que são de “risco” fazerem exames regularmente. Diabéticos e hipertensos devem fazer exames regularmente, agora a luz das novas evidencias, obesos moderados, mesmo sem alterações em seu colesterol, sem diabetes ou hipertensão devem fazer a avaliação de sua Creatinina e de sua perda de Proteína urinária (Albuminúria). Assim pode-se identificar precocemente essa complicação antes da perda de mais de 80% da função renal, onde os sintomas clínicos começam a aparecer.

A perda da função renal pode levar o paciente a uma poltrona de hemodiálise, mas mais importante do que isso, a perda da função renal leva a um risco de morte, no mínimo sete vezes maior, podendo esse paciente nem sequer chegar a uma terapia dialítica. Prevenção e detecção precoce é o melhor tratamento e é isso que o Dia Mundial do Rim desse ano quer alertar. Lembre-se, 9 de março de 2017, vamos lembrar dos nossos rins e o que podemos fazer para ajuda-los.

* Rubens Lodi é médico nefrologista e consultor da B. Braun Avitum

Tags: aberta, Artigo, JB, rim, Sociedade

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