Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Visto de Fora

Visto de Fora

Miguel Paiva


Mais radical e menos chic

Jornal do Brasil

Há exatos 30 anos, criei para este jornal a Radical Chic. Eram outros tempos. Não sabia muito bem o que estava fazendo. Queria desenhar uma personagem feminina que fosse ao mesmo tempo a negação de estereótipos, mas que não resistisse a certos hábitos tão femininos da época. Como ela mesmo dizia do alto do seu corpo magro e longilíneo, “carrego na mão esquerda o livro de pensamentos de Mao Tsé-Tung e na mão direita uma taça de Dom Pérignon”. Naqueles tempos, pouco se ouvia sobre universo feminino, ainda que a batalha estivesse viva. Aprendi com minha amiga Rosiska Darcy de Oliveira o que era o universo feminino. Fiz um curso intensivo e, além do trabalho com Rosiska, veio a ansiedade por criar uma personagem. 

Charge da coluna 22/07

A Radical reunia características femininas várias em uma mulher só. Não existia, é claro, mas muitas mulheres se viam nela. Foi instintivo para mim, como um aluno dedicado que aprende uma língua nova, tira 10 nas provas mas sabe que aquela não é sua língua. Vários homens se espantaram e alguns até se revoltaram. Millôr Fernandes pontificou que eu não podia fazer humor a favor das mulheres. Rapidamente respondi que estava fazendo humor contra o machismo. Vapt- vupt! Tentava dizer tudo aquilo que imaginava que uma mulher na idade dela, por volta dos 35 anos, gostaria de dizer e não tinha onde. Muita pretensão da minha parte, mas a vida foi passando e a Radical sobrevivendo. Parei de publicar na hora certa, exatamente na hora em que as mulheres começaram a gritar mais alto nesta nova fase do feminismo que vem acontecendo nos últimos anos. E é uma fase mais radical ainda. Percebi bem rápido e com a ajuda dos meus filhos (curiosamente filhos homens bem criados) que este é um momento delas. As revelações dos assédios, da violência e das diferenças e preconceitos não precisam do nosso aval nem que falemos por elas. Elas têm onde e sabem o que dizer. É justo. 

Os homens chiaram, continuam a chiar como sempre fizeram e eu, do alto da minha modesta sabedoria, preparo ouvir. A Radical continua por aí, aguardando algum momento para se manifestar. E ela tem esse poder, não se deixa enganar nem iludir pelas minhas possíveis e involuntárias manobras masculinas. Ela tem vida própria. Dizem que estava se manifestando na Copa com as Pussy Riot em Moscou, ou ajudando as mulheres da Arábia Saudita a dirigirem seus carros. Parece que botou na cabeça que vai estar juntos às iranianas quando elas quiserem ir aos estádios de futebol, ou às japonesas quando decidirem andar na frente de seus maridos e foi vista nas ruas do Rio em uma manifestação pela legalização do aborto. Tem muito lugar para ela ser Radical e Chic. Ela está na lembrança das mulheres que curtiram suas sacadas e nos meus arquivos afetivos. Foi garota-propaganda do JB, capa de revista e posou para a Playboy. Até programa na Globo fez e sobreviveu. Mas o tempo passa até pra ela e que bom que passa. 

Mas se a era Bolsonaro vingar e paralisar nosso país de vez, talvez a Radical deixe de viver só na nossa memória para reaparecer, braço dado com essa galera corajosa e inteligente que botou definitivamente o bloco na rua. E quando o bloco está na rua é difícil voltar atrás.



Tags: caderno b, cartunista, cultura, jb, miguel paiva

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