Se vivo fosse, Raul Seixas hoje estaria com 66 anos. Pouco antes de morrer, em 1989, Raul, em parceria com Marcelo Nova, escreveu Rock’n’roll, uma música em que ele, com seu jeito irreverente, externava as agruras que tinha com os tropicalistas, segundo conta um ex-amigo pessoal e autor de dois livros sobre a vida do cantor nascido em Salvador, Toninho Buda (pseudônimo). Talvez constrangido pela comoção da sua morte, onze anos depois, Caetano Veloso lançou Rock’n’raul, uma tácita e mordaz resposta, para não dizer acerto de contas, apesar de o próprio ter dito tratar-se de uma homenagem. Na letra, Caetano cutuca Lobão, que, vivo, retruca (“Para o mano Caetano”), e fala o óbvio – para qualquer pessoa que se preze pelo bom-senso – sobre a referência póstuma a Raul: “A voz do morto que não presta depoimento”.
Quem conhece razoavelmente o legado de Raul Seixas sabe que a inquirição filosófica desborda com vigor em suas composições. O que sou?, Para onde vou?, etc, questões candentes do debate filosófico, abundam em canções como Todo mundo explica, A pedra do Gênesis, dentre várias. A questão da verdade, hoje quando muito tratada de modo relativo (como “uma imputação de sentido” da parte do sujeito, como dizem), é, conscientemente, e de modo espontâneo, uma busca incessante. “Desde os 11 anos de idade eu já desconfiava da verdade absoluta”, cantava ele em 1974. Na sua procura pelo segredo do universo, escreveu em Judas (1978): “É que lá em cima, lá na beira da piscina, olhando os simples mortais; Das alturas, fazem escrituras e não me perguntam se é pouco ou demais”. Outro exemplo é DDI, onde ele fala a partir de Deus: “Alô, aqui é do céu, quem tá na linha é Deus; Tô vendo tudo esquisito, o que que há com vocês? (...) Eu fiz vocês como eu, imagem e perfeição, e vocês anarquizando a minha reputação”. Ou seja, de modo lúdico e ao mesmo tempo profundo, Raul cutucava a humanidade e a sua fé quase que cega numa força transcendental e onipresente. Sempre sutil e irônico, na sua busca para uma explicação sobre o sentido da vida, podemos dizer que ele sempre perseguia uma verdade (ou resposta) que explicasse todo o sentido de estarmos aqui, vivos (“Se eu aconteço se deve ao fato de eu simplesmente ser”).
Este último verso enuncia um aspecto do seu legado que chama a atenção: o uso em suas músicas, outra coisa quando muito mal problematizada no debate filosófico contemporâneo, do ponto de vista ontológico do ser, como na clássica Gita. Na filosofia, essa é uma diferença fundamental na designação da verdade sobre o objeto. Esta deve ser dita a partir da perspectiva do sujeito cognoscente, ou do objeto que existe independentemente da consciência dele? O passeio que ele faz pela História – como em “Eu nasci há dez mil anos atrás” – refuta, dessa maneira, toda concepção rasteira que rompe com a unidade existente entre teoria e prática, que opta pelo unilateralismo nessa relação. A autoridade filosófica com que ele se refere a fatos e personagens históricos (como Jesus Cristo, Hitler, Al Capone, Dom Quixote e outros), junto com a altivez e talento peculiar em conciliar tudo isso às angústias do espírito humano, o põe, sem dúvidas, no rol dos grandes artistas que a Humanidade já viu. E a propósito, a simplicidade, algo tão difícil de se ver em certos meios, nunca lhe escapou; ao contrário disso, a falta desta, tão comum na “era das celebridades”, foi combatida – e até antevista – em “muita estrela, pouca constelação” (crítica à futilidade do mundo dos famosos).
Raulzito, portanto, é (pois continua e continuará vivo) um artista universal; um homem preocupado com a realidade em que vive (Aluga-se, É fim de mês), com os efeitos das alienações sobre os indivíduos (“Pastor João e a Igreja invisível”), resoluto (Metamorfose ambulante, Tente outra vez, Geração da luz), totalmente avesso, portanto, à ideia recorrente de muitos pós-modernos que acreditam não existir uma distinção entre essência e aparência na história dos homens desenrolada até aqui – emblemática sobre isso é a clássica Sociedade alternativa, bem como Ouro de tolo e As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor.
Da mesma geração de Raul, Caetano Veloso desde cedo – e a clássica Tropicália é emblemática (Viva a mulata, Viva a Bahia, etc) – buscou seguir uma trilha culturalista, da busca de uma identidade cultural para o Brasil. E isso não só ele o fez. Não são poucos os artistas, tanto na música, como na literatura, autores nas ciências sociais, que buscaram retratar a realidade brasileira. E o problema principal aqui não é nem esse – o de retratar essa realidade; o problema seria como lidar com ela, para onde apontar: ser contemplativo ou emancipatório? A opção de Caetano, mesmo sendo em alguns momentos um artista de vanguarda, propositivo, e, em tempos de multiculturalismo e pós-modernismo, até mesmo antiamericano (como a música Base de Guantánamo, em “zii e zie”, de 2009), nesse marco maior, é pelo culturalismo, pela interpretação do mundo dos homens a partir da cultura.
Certa vez, um filósofo húngaro, György Lukács, nas polêmicas que embalara a antiga União Soviética ainda nos seus primórdios, escreveu que “a política é o meio e a cultura é o fim”. Não estava descartado, dessa maneira, de modo nenhum, o papel da cultura enquanto instrumento de transformação dos homens (e, por conseguinte, da própria cultura). Mas a pergunta decisiva é “no que” se transformar, e não simplesmente fundar a cultura num amálgama, onde “tudo se pode”, até mesmo ser pouco ou nada racional. Rock’n’raul, do álbum Noites do Norte(ano de 2000), seria uma espécie de síntese – ou até mesmo uma inoportuna revanche – do que seria Raul Seixas para Caetano Veloso – um baiano com uma vontade “fela da puta” de ser americano (“Nada de axé, Dodô e Curuzu”). Aliás, nem mesmo “Depois do carnaval a carne é algo mortal”, ou “Plantei num sítio no sertão de Piritiba”, ou “Em Feira de Santana ou mesmo em Paris”, sopram a favor de Caetano e de sua crítica pelo viés culturalista. Ainda assim, vale dizer, nunca seria esse o foco do maluco beleza – o enaltecimento da cultura local.
Como essas almas que se imortalizam ao longo da História, seja pela atemporalidade, ou seja pela prospecção na essência do espírito humano e da sua condição enquanto ente, Raul Seixas, como ele mesmo dizia ser o seu testamento, a sua lucidez (“Quando algum profeta vier lhe contar que o nosso sol tá prestes a se apagar, mesmo que pareça que não há mais lugar, Vocês ainda têm a velocidade da luz para alcançar”), é um imortal, sua obra tem assento garantido na posteridade, em qualquer época vindoura que perfaça a história dos homens. O seu lugar de reconhecimento nesta – que nem mesmo a sua cidade de origem dignifica, haja vista a “homenagem” que é vista nos arredores de um shopping em Salvador –, contudo, pode se dizer que é diretamente proporcional “ao nível mental” (Dentadura postiça). Ou seja, se este sobe, e “o preço do caos” desce, é sinal de que homem e gênero estão em vias de reconciliação. Agora, quando se dá o contrário, como a época atual em que (com algumas exceções) a sociedade se chafurda no entulho da chamada indústria cultural, ou mesmo perde o horizonte da emancipação, o seu espólio, enquanto "raulseixismo", como dizia o seu parceiro Marcelo Nova, é destratado. Contudo, ainda assim, dada a sua enorme força, estamos aqui, hoje, vinte e dois anos após a sua morte, rememorando e celebrando a sua obra; e, por que não dizer, revirando o baú do Raul.
Rogério Castro é jornalista e mestre em serviço social