Jornal do Brasil

Hildegard Angel

Só Tupã salva Tupã para presidente!

Jornal do Brasil

Pesquisador, marchand, curador, consultor, palestrante, colecionador, formador de opinião. São inúmeros os talentos de Márcio Roiter, que incluem um profundo conhecimento sobre a cultura e a história do Brasil. Um erudito, Roiter fundou e dirige o Instituto Art Déco Brasil. Ele conversou com nosso repórter, JOÃO FRANCISCO WERNECK, sobre arte, arquitetura, a cidade e novos projetos.

Em seu apartamento no Jardim Botânico, ao lado da pesquisadora e escritora Nubia Melhem Santos, amizade cultivada desde os tempos de infância, ele discorreu sobre o novo projeto: o livro“Pindorama modernista, a influência indígena no Modernismo e no Art Déco brasileiros”, em que revela os aspectos preponderantes da cultura indígena para o nascimento de um Art Déco único, que ainda podemos chamar de nosso. O arquiteto Maurício Prochnik e a pesquisadora Nubia Melhem participam com ele da empreitada.

Macaque in the trees
Márcio Roiter, o "Embaixador do Art Déco", em sua residência de colecionador no Jardim Botânico (Foto: Marcos Tristão)

Vanguardista, é dele a efetiva voz de nosso país no movimento Art Déco mundial. Em maio passado, a convite da prefeita Frederique Macarez, da cidade de Saint-Quentin, e a prefeita adjunta responsável pela renovação urbana, Monique Bry, ele foi à França falar sobre o movimento e sua vertente indígena na arte brasileira. Um momento singular, que merecia ser celebrado no Brasil, como sempre são as passagens de Márcio pelo exterior, seja como palestrante, curador ou consultor.

A Coluna tomou gosto por trazer grandes personagens, que acreditam no potencial do Rio de Janeiro, como Márcio, um notável em sua especialidade, que acredita que esta cidade tem muito a contribuir com o mundo através da arte, essa força capaz de transformar sociedades e construir gerações.

Qual a origem de sua paixão pelo Art Déco?

O Art Déco era um patinho feio aqui no Brasil. Quando fiz 15 anos, passei uma temporada em Paris, onde frequentei um curso da Universidadede Sorbonne para estrangeiros, e tive então um clique do que acontecia em torno da revalorização daquela época. Havia um ambiente propício para isso, e tudo me orientava na mesma direção. Nos anos 50, minha mãe teve um programa chamado Clube Juvenil Toddy, que era gravado no estúdio da Rádio Nacional, no último andar do Edifício “A Noite”. Aquele prédio era o ícone do Art Déco da cidade. Houve também a influência do meu avô, que veio da Rússia nos anos 20, e teve uma loja no Brasil onde vendia Art Déco.

Por que há as restrições à designação Art Déco?

Sim, e é importante falarmos sobre isso. Porque o nome nasceu dissociado do estilo, que se chamava “moderno”, e se tornou Art Déco quando várias pessoas passaram a se referir a uma vertente do estilo moderno, que continha flores geometrizadas, um traço aerodinâmico, uma decoração marcada pela geometria, influenciada pelas correntes, na pintura, de cubismo, de expressionismo. Uma salada de elementos formatou o estilo consagrado em 1925, na “Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas”, em Paris, onde as pessoas, as famílias, também compravam seus objetos, a exposição era comercial. Vale lembrar que a França se levantava da Primeira Guerra Mundial, e precisava alavancar a sua economia. Atualmente, existe um preconceito reverso, e o Art Déco dá impressão de algo muito chique, muito sofisticado.

Há alguma relação disso com a consolidação do American Way of Life do Pós-Guerra?

Acredito que sim. A casa americana precisava ser moderna, e o consumo está sempre sintonizado com o novo produto. E este tem que apresentar um desenho agradável, que reforce o conceito do up to date. Mas é claro que os Estados Unidos criaram uma grande força arquitetônica, e isso desde a Grande Depressão. O esforço de Roosevelt consistiu em levantar grandes prédios, o Empire State, o Rockefeller Center, o Chrysler Building. Os três maiores ícones do Art Déco em arquitetura, em Nova York, são do período da Grande Depressão. Os próprios automóveis dos anos 30 simbolizavam um pouco dessa sociedade que estava sendo criada.

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O mobiliário em casa de Roiter é fiel ao estilo propagado por ele (Foto: Marcos Tristão)

O Sr. tem se dedicado com persistência à preservação do estilo Art Déco. Qual o resultado desses seus esforços?

Eu não estou sozinho. Gosto de dar a cara à tapa, de divulgar, porque ainda há muita estrada, muita consciência para ser tomada, que não existe. Já houve um prefeito, como o Luiz Paulo Conde, que estudou e protegeu o estilo e, em 1996, fez um primeiro seminário que rendeu um fruto lindo: o 1° Seminário Interacional de Arquitetura Art Déco no Brasil, que aconteceu pela primeira vez na América Latina, em 2011. A conscientização do brasileiro passa muito pelo interesse do estrangeiro.

Vamos falar sobre o Edifício A Noite. A União diz que será vendido. Qual a sua opinião?

Eu acho inadmissível que durante anos aquele patrimônio artístico tenha sido abandonado. Com o abandono ele se deteriora muito mais fácil. Não é efeito de retórica dizer que a qualquer momento aquilo vai ser uma ruína, e algo precisa ser feito imediatamente. O que “A Noite” merecia era outro futuro, outra situação. E o que se gastou de dinheiro com reforma pública naquela área da cidade! O prédio “A Noite”, desenhado pelo arquiteto do Copacabana Palace, Joseph Gire, representa os primeiros estudos para uso de concreto armado em obras daquela dimensão, uma proeza de Roberto Baumgart. No edifício, estavam presentes as maiores empresas de linhas marítimas, a Rádio Nacional, a Phillips do Brasil, escritórios importantes. Como se abandona por tantos anos um dos principais ícones da cidade?

Recentemente, na França, você fez uma palestra sobre “As Origens Indígenas do Art Déco Brasileiro”. Qual a importância dos índios nesse processo?

São eles os donos da nossa terra. Nos anos 30, Getúlio Vargas usou a cultura indígena como programa de Governo. Havia concertos com canções indígenas apresentadas para 40 mil pessoas em São Januário. Sem falar nos nomes dos edifícios, com pegada marajoara. A cultura marajoara foi muito marcante na América Latina. Você encontra prédios com nomes indígenas em toda a cidade. O pórtico do Edifício Itahy, em Copacabana, é uma ode aos índios. Na Rua Paissandu há a famosa casa marajoara. Getúlio incentivava essa busca pela identidade brasileira, através da figura do índio. Artistas como Portinari e Vicente do Rêgo Monteiro beberam nesta fonte. Nós tivemos uma versão brasileira do Art Déco, e isso é grande, nem toda nação pode se vangloriar disso.

Vamos falar sobre projetos...

Temos, para novembro de 2019, o projeto de uma exposição com o mobiliário da Coleção Berardo, que levará para Saint-Quentin parte de seu acervo importantíssimo de Art Déco. E em novembro deste ano será inaugurada a mostra sobre os anos heroicos da aviação, quando farei palestra sobre Santos Dumont, personagem importantíssimo da vida parisiense. O que nós falamos há 20 anos como pesquisadores vai ser materializado no livro “Pindorama modernista, a influência indígena no modernismo e Art Déco brasileiro”, que será lançado no ano que vem. Nele, discorremos desde Carlos Gomes, em 1870, até uma exposição acontecida recentemente em Paris, onde um quadro representando dois índios em um barco na Amazônia, pintado por um francês, virou mural no metrô. Só Tupã nos salvará. Tupã para presidente!

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CIRCULAM VIRALIZADOS alguns áudios de Bolsonaro, em que ele barbariza com declarações polêmicas e ataques à Globo. Qualquer desavisado acredita. Porém, a voz é do filho adolescente de Paulo Marinho, o suplente na chapa de Flávio Bolsonaro ao Senado, que imita Jair pai à perfeição. Olho vivo, que cavalo não desce escada. E quando sobe escorrega.

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Com João Francisco Werneck



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