CADERNOB
O carisma, a força e o talento de Chatô e Stepan
Por LUÍS PIMENTEL
Publicado em 01/04/2025 às 11:23
Alterado em 02/04/2025 às 08:10

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Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968), ou simplesmente Chatô, foi um dos homens mais influentes (e polêmicos) do século passado. Comandando com mão de ferro, invejável jogo de cintura e coração de nordestino (paraibano de Umbuzeiros) o maior império de comunicação (jornais, rádio e televisão) que já conhecemos. Implantou, revolucionou e expandiu o jornalismo (com a rede nacional de jornais impressos, os Diários Associados), as artes e os artistas brasileiros (com as emissoras de rádio) além de criar e tornar poderosa a TV Tupy (que fez história no Brasil e foi vítima da turbulenta história brasileira, da qual Chatô foi personagem atuante, tendo as portas cerradas pela ditadura militar logo após a morte de seu fundador).
Depois de fazer de sua rede de jornais (detentora dos títulos mais significativos nas bancas das maiores capitais brasileiras) influente e poderosa; o canal de TV revolucionário e lançador dos primeiros programas de notícias, de entretenimento, de humor e de variedade, além das primeiras telenovelas); e de marcar sua importância na cultura e nas artes com os programas de rádio, dando emprego e visibilidade a talentos da dramaturgia e da canção, como Cassiano Gabus Mendes, Paulo Gracindo, Lima Duarte, Francisco Alves, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Antônio Maria e tantos outros, Chateaubrind (um dos percussores do jeitinho brasileiro) mostrou que, além de saber e repetir que o Brasil não é país para amadores, sabia ser negociador e generoso.
Só justificando o longo parágrafo acima: Chatô “conseguiu” se eleger senador da República e membro da Academia Brasileira de Letras (de onde se conclui que na política ou na cultura o Brasil é, sim, apenas para os profissionais mais safos) e doou generosamente, no fim da vida, 49% por cento de sua fortuna e império a um grupo de funcionários leais, dedicados e maiores corresponsáveis pelo sucesso de seus empreendimentos. Em 1994 foi lançada a estupenda biografia “Chatô, o rei do Brasil”, escrita por Fernando Morais, um dos autores do espetáculo teatral que acaba de estrear no Rio e sobre o qual vou falar, mesmo sem ser do ramo.
“Chatô e os Diários Associados – 100 anos de paixão”, a que acabo de assistir, conta tudo o que tentei descrever, só que com muito mais talento (até porque, tem o gigante Stepan Nercessian à frente do elenco, vivendo o protagonista), alegria (é um vibrante e delicioso musical), tempo de narrativa (são mais de duas horas de duração) e acabamento cênico (a direção do experiente Tadeu Aguiar é impecável).
Stepan (um brasileiro típico, especialista em tipos brasileiros, basta lembrar do velho guerreiro Chacrinha) veste um Chatô (o terno vermelho laranja com gravata vermelha que enverga durante toda a peça) de arrepiar a quem conheceu ou não conheceu o “rei do Brasil”, em momentos em que carisma, força e talento se misturam e expõem, em defesa da arte do teatro, o que tem de melhor. No elenco (grande, com presenças fortes no apoio de cantores, músicos, atores e dançarinos) destacam-se, ainda, os nomes de Cláudio Lins, Sylvia Massari e Patrícia França, todos exuberantes na pele e roupas dos anos 50 de seus personagens.
Se estivesse na plateia (é possível, pois ele se achava onipresente), Chatô diria ao fiel escudeiro escolhido pela dramaturgia (que além de Morais conta com o autor Eduardo Bakr) para recontar a sua história:
– Não falei pra você que eu era o rei da zorra toda?!
O espetáculo (em todos os sentidos, dramatúrgico e histórico) está em cartaz no Teatro João Caetano, na tradicional Praça Tiradentes.