O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

gilberto.cortes@jb.com.br

O OUTRO LADO DA MOEDA

Tarifaço eleva a 40% risco de recessão global

Publicado em 02/04/2025 às 15:06

Alterado em 02/04/2025 às 15:06

Diante da crescente incerteza com o novo tarifaço do governo Donald Trump que será anunciado hoje, 2 de abril, à tarde, a JP Morgan Research elevou a probabilidade de uma recessão global de 30% no início do ano) para 40%. O sentimento empresarial e a confiança do consumidor caíram nos EUA, e uma desaceleração doméstica pode pesar no crescimento global. Nesse cenário econômico em rápida evolução, a divisão de pesquisas do banco JP Morgan ainda espera ver mais dois cortes nas taxas pelo Federal Reserve este ano. A taxa do Fed foi mantida no intervalo de 4,25% e 4,50% em 19 de março.

Embora a economia global tenha se expandido em um ritmo moderado neste ano, as mudanças em andamento na política dos EUA estão pesando no sentimento e no crescimento — o que pode ter efeitos cascata no resto do mundo. Poderia uma recessão estar nos planos?

“Agora vemos um risco materialmente maior de uma recessão global. A mudança da administração na aplicação da política tarifária e o impacto potencial no sentimento contribuíram para esse risco aumentado”, afirma Bruce Kasman, economista-chefe global, JP Morgan.

Na avaliação dos economistas do banco, a nova lista de tarifas deve mover a taxa tarifária efetiva dos EUA acima de 10% e resultará em um arrasto de 0,5 ponto percentual no PIB global e dos EUA em 2025. “Mesmo depois de contabilizar ações retaliatórias, esse arrasto não é grande o suficiente para ameaçar uma expansão que se apoia em terreno fundamentalmente sólido. Nossa preocupação, no entanto, é que três impulsos relacionados ampliem o tamanho desse arrasto”, observou Kasman.

Primeiro, o novo conjunto de tarifas pode minar a visão de que o governo Trump manterá uma postura política de apoio aos negócios, criando um grande choque no sentimento empresarial. Setores-chave da economia norte-americana também podem ser afetados à medida que o governo se move para restringir o comércio e a imigração. Finalmente, pode haver menos espaço para a política preventiva do Fed amortecer esses efeitos de ampliação se as expectativas de inflação de curto prazo aumentarem.

O índice de expectativas de manufatura global (MEI) do JP Morgan caiu acentuadamente durante a guerra comercial de 2018–2019, mas, de forma um tanto contraintuitiva, subiu nos últimos meses. “Atribuímos esse aumento à retomada antecipada da indústria global que está compensando um potencial arrasto da crescente preocupação com a guerra comercial. Embora isso provavelmente seja transitório, pode estar servindo para atrasar um choque de sentimento em formação”, disse Kasman. Por outro lado, as pesquisas regionais recentes do Fed mostraram uma redução nas intenções de gastos de capex dos EUA, indicando que o sentimento empresarial foi atingido.

Uma desaceleração no crescimento dos EUA poderia se espalhar nova lista de tarifas, o que provavelmente moverá a taxa tarifária efetiva dos EUA acima de 10% e resultará em um arrasto de 0,5 ponto percentual no PIB global e dos EUA em 2025. “Mesmo depois de contabilizar ações retaliatórias, esse arrasto não é grande o suficiente para ameaçar uma expansão que se apoia em terreno fundamentalmente sólido. Nossa preocupação, no entanto, é que três impulsos relacionados ampliem o tamanho desse arrasto”, observou Kasman.

Primeiro, o novo conjunto de tarifas pode minar a visão de que o governo Trump manterá uma postura política de apoio aos negócios, criando um grande choque no sentimento empresarial. Setores-chave da economia norte-americana também podem ser afetados à medida que o governo se move para restringir o comércio e a imigração. Finalmente, pode haver menos espaço para a política preventiva do Fed amortecer esses efeitos de ampliação se as expectativas de inflação de curto prazo aumentarem.

Cenário dos juros

Contra esse cenário econômico em rápida evolução, a JP Morgan Research espera mais dois cortes de taxas este ano — em linha com as próprias previsões do Fed. “Continuamos a ver cortes em junho e setembro, com o risco de mais cortes, mas começando mais tarde”, disse Michael Feroli, economista-chefe dos EUA na JP Morgan. O piso dos juros nos EUA está entre

Dito isso, o ciclo de corte será amplamente moldado pelos desenvolvimentos políticos. A incerteza da política comercial pode pesar no crescimento da atividade, enquanto as tarifas que já entraram em vigor, como sobre aço e alumínio, podem atiçar a inflação, resultando em um arrasto correspondente no poder de compra do consumidor.

E medidas retaliatórias por parceiros comerciais estrangeiros podem impactar o crescimento bruto das exportações. Como resultado, a JP Morgan Research reduziu sua estimativa de crescimento real do PIB em 2025 em 0,3 pontos percentuais para 1,6%, e agora espera que a taxa de desemprego atinja o pico de 4,4% — 0,2 pontos percentuais a mais do que sua previsão anterior.

Na mesma linha, o Fed revisou suas projeções econômicas para o ano na reunião de 19 de março, indicando que isso se deve em grande parte à política comercial. A previsão de crescimento real do PIB do Fed para 2025 agora é de 2,1% (abaixo de 1,7%), enquanto o PCE principal foi revisado para cima de 2,5% para 2,8%. O desemprego foi revisado para cima para 4,4%.

“A combinação de inflação mais alta e o crescimento mais fraco do emprego cria um dilema para o Fed. Estamos mantendo nossa previsão anterior de dois cortes, mas podemos entender por que o mercado espera mais”, disse Feroli.

Impactos no câmbio

O mercado de câmbio opera bem estressado hoje, com valorização de 0,53% do euro frente ao dólar, de 0,46% da libra esterlina contra o dólar e de +0,94% do dólar australiano frente ao dólar. A moeda americana cai 0,02% frente ao iene e 0,26% diante do franco suíço. Por volta das 13 horas (horário do Brasil), o dólar era cotado a R$ 5,6985. Com alta de 0,31% ante o real, anulando dois dias de valorização da moeda brasileira. O dólar subia 0,77% contra o peso mexicano, mas caía 0,52% frente ao dólar canadense. E caía apenas 0,02% diante do yuane, chinês.

Carteira do Master lembra Laureano

A qualidade da carteira de papéis do Banco Master, cuja compra, por R$ 2 bilhões, pelo Banco Regional de Brasília, ainda não foi aprovada, lembra muito o carteirão de títulos da problemática corretora Laureano, pivô do estouro da Coroa-Brastel, no começo dos anos 80.

Nos primórdios do “open market”, a Laureano formou uma carteira de “Obrigações da Eletrobrás”. Eram recibos de empréstimos compulsórios embutidos nas contas de grandes consumidores de energia da Eletrobras (comércio e indústria). Com prazos de 20 anos e correção monetária equivalente às ORTNs (de dois e cinco anos de prazo), as OE tinham o atrativo de sorteios semestrais para resgate antecipado.

Roberto Laureano formou uma imensa carteira destes papéis, comprados a preço de banana (os empresários não acreditavam no resgate ao fim de 20 anos). Até aí, tudo bem. Mas passou a usar os títulos (muitos dos quais nem tinham reconhecimento pela estatal de energia) como lastro em operações de financiamento no mercado aberto.

Quando o ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, disciplinou as operações com carta de recompra (até 30 vezes o capital e reserva das instituições financeiras), pela Instrução 366, as OEs ficaram de fora. Mas Laureano tinha um trunfo para não quebrar ou sofrer intervenção: empregou como diretor da corretora um dos filhos do ministro Golbery do Couto e Silva, criador do SNI e um dos braços direitos do ex-presidente Geisel.

Na mudança do governo Geisel para Figueiredo, Simonsen trocou a Fazenda pelo Planejamento, mas renunciou em agosto de 1979, passando Delfim Neto a comandar a economia no Planejamento. E Golbery ficou na Casa Civil de Figueiredo. Mas Golbery deixou o governo após a bomba no RioCentro (maio de 1981) e a Laureano, que tinha o carteirão de OEs bancado pela Coroa-Brastel, de Assis Paim (seu antigo sócio), quebrou com a intervenção do Banco Central na Coroa-Brastel, que emitia Letras de Câmbio sem lastro.

Os tempos são outros, o mercado está mais sofisticado, mas, mal comparando, o BRB atuava para dar liquidez ao Master como a Coroa-Brastel fazia com a Laureano.

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